Philip K. Dick’s Electric Dreams: 1×01 – The Hood Maker (Channel 4)

O artigo que se segue não contém SPOILERS

Um dos maiores “atropelos” de que há memória em anos recentes no que toca a direitos de ficção televisiva envolve o Channel 4 e a aclamada série de antologia de Charlie Brooker, “Black Mirror”. Após duas temporadas exibidas no canal britânico, onde conseguiu conquistar a crítica e estabelecer um estatuto de série de culto junto do público, “Black Mirror” era comprada pelo Netflix, que adquiriu os direitos junto da produtora Endemol Shine, deixando o Channel 4 de mãos a abanar. Os responsáveis pelo canal britânico, que na altura julgavam ainda ter a primeira opção de exibição no Reino Unido, estavam enganados e, assim, o Channel 4 era colocado de parte em tudo o que estivesse relacionado com uma das séries que, graças à universalidade da plataforma de streaming, se tornou das mais populares dos últimos anos. “Philip K. Dick’s Electric Dreams” é a sua resposta a tal tremenda perda.

Baseada em vários contos de Philip K. Dick e produzida por nomes como Ronald D. Moore (“Outlander”, “Battlestar Galactica”) e Bryan Cranston (“Breaking Bad”), esta nova série surge numa altura em que dificilmente conseguirá sair da sombra de “Black Mirror”, série de culto que se tornou mega-popular. A facilidade com que se descarta algo por comparação por estes dias, sem sequer se prestar a uma verdadeira análise crítica, é assombrosa e “Electric Dreams” pode ter aí um grande obstáculo. Primeiro, porque parece (é…) uma clara resposta do Channel 4 ao sucedido em 2016 (mencionado no início do texto). Segundo, porque parece não demonstrar qualquer interesse em se dissociar de “Black Mirror”. Na verdade, parece mesmo querer aproveitar a “onda”. A estrutura é a mesma, está populada de actores do momento (neste episódio temos Richard Madden, mas vêm por aí Bryan CranstonTerrence HowardAnna PaquinVera FarmigaJanelle MonáeGreg Kinnear e Steve Buscemi) e as histórias que nos propõe querem servir como reflexão social.

Claro que esta vertente de crítica e reflexão social é inerente ao próprio autor original dos contos. Philip K. Dick era um visionário. Um homem com os olhos postos no futuro, que colocou no papel vislumbres do nosso presente. Noutros tempos, teria sido considerado um profeta. As suas histórias, sejam de curta ou longa duração, encontram-se repletas de significado para a nossa realidade actual, bem como para aquilo que ainda nos espera. “Philip K. Dick’s Electric Dreams” é mais uma forma de relembrarmos a sua genialidade.

Neste primeiro episódio, somos transportados para um futuro (próximo?) onde existe uma nova forma de sermos controlados. Tudo aquilo que somos e fazemos não é escrutinado através de máquinas. É-o, em vez disso, através de pessoas que nasceram com a habilidade de telepatia. Estes telepatas, os Teeps, marcados com um sinal que os distingue, começam a ser integrados, por lei, em posições de relevo na sociedade, especialmente nas forças policiais, por forma a apertar o controlo dos denominados “Normais”. Esta decisão encontra, naturalmente, resistência. Enquanto os “Normais” tentam encontrar formas de evitarem ser escrutinados sem autorização, os “Teeps”, por sua vez, ostracizados devido à impopularidade das suas capacidades inatas, começam a fartar-se de serem singularizados e diminuídos. Pelo meio, uma típica história de amor ao género de Romeu e Julieta.

O primeiro sentimento que transparece deste “The Hood Maker” é a sua similaridade com outras histórias, mas tendo em conta que Dick é um dos percursores deste tipo de imaginário será justo desprezar uma adaptação dos seus contos com base em tal pressuposto? Mesmo não sendo uma história que se sente fresca, porque já foi copiada tantas vezes, não deixa de ser eficaz.

O maior senão que identifico a “Philip K. Dick’s Electric Dreams”, pelo menos neste primeiro episódio, reside sim num problema comum às séries de antologia, especialmente aquelas com histórias distintas de episódio para episódio: é que 40-50 minutos nem sempre são o suficiente para que a narrativa possa “respirar” devidamente. “The Hood Maker” sofre, sobretudo, neste aspecto, numa tentativa de apresentar uma história complexa, apesar de recauchutada, em tão pouco tempo. As personagens são minimamente consistentes, mas o contacto com elas parece tão fugaz que se já por si se torna difícil escolher um lado, pior ainda quando se tenta cimentar essa escolha.

2 opiniões sobre “Philip K. Dick’s Electric Dreams: 1×01 – The Hood Maker (Channel 4)”

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