RC (11-17, Set-17): Tabula rasa

“Mr. Mercedes” faz eco do passado. “Rick and Morty” joga com a memória. “Room 104” não se despenha. “You’re the Worst” usa o sexo como escape.

Mr. Mercedes: 1×06 – People in the Rain

Ao sexto episódio, “Mr. Mercedes” traz à tona o passado como lembrete dos erros outrora cometidos. Paira uma aura de nostalgia do irrecuperável. Bill Hodges (Brendan Gleeson) coexiste diariamente com um sentimento de culpa. À semelhança deste, também Janey (Mary-Louise Parker) se vê incapaz de reescrever a sua ausência nas últimas vivências da mãe. Na outra frente da guerra por vir, Deborah (Kelly Lynch) tenta regredir à segurança de outrora sem que tal signifique resvalar nos vícios. A velha imagem continua a ser-lhe rótulo. Ao contrário do esperado, Deborah não recorre ao álcool no seu momento de fraqueza. Por iniciativa própria, isto é. Uma breve conquista que a longo prazo seria acrescento bastante significativo à personagem. Tem tanto de cruel quanto de fascinante a cena que encerra o episódio. Brady (Harry Treadaway) oferece a garrafa de vodka à mãe e observa em privado a indecisão em torno do primeiro gole, qual rato que ronda a ratoeira. Deborah volta a ser presença neutra na rotina do filho.

Visualmente belo e macabro o devaneio de Brady no restaurante. Violência estilizada que relembra o espectador do vazio deixado por “Hannibal”. Brady retira o carro de bombeiros do ventre da mãe e ostenta-o no ar. Audiência inanimada, por entre a qual se pode encontrar a aparição-relâmpago de Stephen King. Ouvem-se as sirenes. Belíssimo simbolismo.

Sendo clara melhoria quanto ao episódio que o precede, “People in the Rain” humaniza as personagens ao colocar-lhes o passado como entrave.

 

Rick and Morty: 3×08 – Morty’s Mind Blowers

A longa espera pela terceira fornada de episódios de “Rick and Morty” tem vindo a ser continuamente recompensada com uma elevada dose de criatividade. Afinal de contas, fala-se de uma temporada que contempla o mítico “Pickle Rick”, híbrido que rapidamente se viu adaptado a inúmeros motivos pelas redes sociais fora. O culto em torno da série é cada vez maior.

“Morty’s Mind Blowers” funciona como substituto ao episódio-constante em todas as temporadas da série, conseguindo ser bastante superior à qualidade demonstrada pelo “Interdimensional Cable” do seu segundo ano. Um dos episódios mais hilariantes que a série alguma vez entregou e que, ainda assim, na sua recta final resvala no drama com a sugestão de um pacto suicida entre os heróis. Nunca esquecer a tentativa de suicidio de Rick na segunda temporada. Nunca esquecer o quão negra pode ficar uma série de animação tão tresloucada como “Rick and Morty”.

Por entre tantas memórias desenterradas, quão inédito o erro gramatical dado por Rick? A satisfação de um Morty que pela primeira vez ganha a oportunidade de o corrigir. Ou a prontidão da mãe em escolher salvar Summer. A sujidade na lente do telescópio que leva ao despedimento e subsequente suicídio de um homem. Inúmeras as efemeridades que surpreendem ao serem contidas em meros vinte minutos.

 

Room 104: 1×08 – Phoenix

Sendo “Room 104” série para mera meia-hora na grelha de programação, por vezes a sua fluidez narrativa sofre com tamanha limitação. Ainda que talvez não atinja a mestria dos episódios 5 e 6, “Phoenix” preenche bem o seu tempo de antena. A câmara move-se lentamente, dando reconhecimento visual aos recantos de um quarto agora ambientado em 1969. Cada enquadramento é pincelada na caracterização.

Amy Landecker transmite medo e desorientação nas doses certas. Há algo de absolutamente fascinante na ideia de uma sobrevivente de um acidente de viação que se arrasta até um motel para lamber as feridas. Longe do sufoco das câmaras, do odor a morte. Recolhe-se para se reavaliar e decidir o próximo passo, qual janela de oportunidade que se abre diante de si. Num episódio com um quê de David Lynch, tamanha proposta acaba por não ser assim tão linear. Tal como outros episódios de “Room 104” já o haviam feito anteriormente, “Phoenix” constrói-se e conduz-se na direcção de um twist que complementa e anula, sendo-o neste caso uma reviravolta já bastante usada em ficção.

Acontecimentos que se desenrolam como fruto do estado de choque em que se encontra a personagem, sendo que a visitante funcionaria como a sua consciência? Ou será que aquilo que se testemunha é o quarto 104 como purgatório à personagem? A ferida aberta na nuca parece favorecer a última hipótese. A segunda personagem é dessa forma um anjo enviado com o propósito único de a guiar além da sua condição suspensa? A personagem de Amy Landecker existe entre duas decisões contrárias, a de continuar com a família ou uma outra que a leve a prosseguir com o amante. Havendo a indecisão no plano do terreno, é natural que lhe seja igual entrave num plano pós-vida.

Joan morreu durante a noite, no interior do próprio quarto? Agora suspensa por entre as ditas paredes, incapaz de se comprometer a uma decisão. Condenada a um loop que a aprisiona ao quarto titular. Se “Room 104” vier a optar por ser uma antologia mais aberta com referências que se perpetuam por entre episódios, como o é no caso de “Black Mirror”, então pode ter nesta personagem a sua primeira constante, passível a uma reaparição no futuro.

 

You’re the Worst: 4×03 – Odysseus

aqui abordei a influência de Jimmy para aqueles que o rodeiam, em jeito de comparação a um outro narcisista de seu nome BoJack Horseman. Estando este de regresso, prevêem-se mudanças na rotina estabelecida. “Odysseus” surpreende ao trazer consigo raríssimos momentos de fragilidade para um novo Jimmy (Chris Geere). Aterra num admirável (?) mundo novo, incapaz de reconhecer até mesmo o espaço que lhe servira de casa. Há uma nova dinâmica criada na sua ausência que não o contempla. Por detrás da carapaça intransponível, houve vislumbres de um Jimmy capaz de descer ao nível mundano e pedir perdão. Assim o foi com Edgar (Desmin Borges), ao reconhecê-lo pela primeira vez como bem mais que o parasita que há muito lhe é rótulo. Baixa a guarda e reconhece a sua ausência como tendo peso. Ainda assim, de louvar a reacção de um Edgar que opta pelo seu bem-estar em detrimento da atenção do amigo-fetiche.

O reencontro com Gretchen registou-se como mais um excelente momento para Aya Cash, esta que comporta a melhor interpretação por entre o elenco. Um misto de raiva e incredulidade diante daquele que lhe virou costas e que agora retorna. “Hey. Dot. Dot. Dot.” Naquele instante, Gretchen é dona do tempo e espaço que habita. Silêncio.

Não havendo grande espaço para qualquer subtexto, o motivo para o virar de costas de Jimmy tinha ficado claro. Ainda assim não deixa de ser doloroso ver a incógnita de Gretchen cair por terra. O termo “família” como fissura.

3 opiniões sobre “RC (11-17, Set-17): Tabula rasa”

    1. SPOILERS “You’re the Worst”

      Damn, o olhar da Gretchen até arrepia. E adorei como ela jogou com o Jimmy na cena final, a pedir-lhe desculpas por ter usado o termo “família”, e o Jimmy a deixar-se levar e a julgar aquilo como sincero.

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