Strike (T1): Um tiro no escuro

O texto que se segue NÃO CONTÉM SPOILERS

Apostar numa adaptação televisiva de um romance de sucesso é sempre um tiro no escuro. Por vezes a coisa funciona, mas de vez em quando o tiro sai ao lado, com consequências imprevisíveis. Felizmente, nos dias que correm temos tido a sorte de chegarem à televisão adaptações com cada vez maior qualidade que, embora nem sempre 100% fiéis ao original, conseguem respeitá-lo, como foi o caso “The Night Manager” e “The Handmaid’s Tale”. Será que “Strike” teve a mesma sorte?

Antes de mais, falemos um pouco sobre o contexto da série. “Strike” é baseado na série de livros homónima escrita por Robert Galbraith, um veterano investigador da polícia militar britânica. Desde 2013 e até agora foram publicados três livros: “The Cuckoo’s Calling”, “The Silkworm” e “A Career of Evil”, com o quarto livro, “Lethal White”, a ser publicado em breve. A série segue as (des)aventuras de Cormoran Strike, um detective privado que não tem tido muita sorte na vida, e da sua fiel assistente, Robin Ellacot. Até aqui, tudo normal, não fosse um pequenino pormenor: é que Gailbraith não existe nem nunca existiu, sendo um pseudónimo de J.K. Rowling, a criadora do famoso Harry Potter. Depois de críticas mistas ao seu primeiro romance para adultos, “The Casual Vacancy” (que também já teve direito a uma série), percebe-se porque Rowling tomou a decisão de escrever sob um pseudónimo, dando assim oportunidade à obra de ser avaliada por ela mesma, e não pelo nome que vem impresso na capa. Infelizmente, a coisa não correu como planeado e, mesmo as vendas estando a correr bem para uma primeira obra de um autor desconhecido, foi descoberta a verdadeira origem da saga, dando azo a uma reviravolta no mundo editorial e à grande questão: estaria “Strike” à altura da sua autora?

A resposta, surpreendentemente, é sim. Embora num registo diferente daquele que estamos habituados de Rowling, a autora conseguiu não só criar mistérios interessantes como, e acima de tudo, transportar para este registo aquilo que de melhor sabe fazer: criar personagens altamente cativantes, que queremos acompanhar ao longo do livro e que não nos deixam pousá-lo até chegarmos à última página. Com tão boa fonte, tornava-se assim imperioso para a BBC fazer uma adaptação à altura da série original. E eis que surge a primeira temporada de “Strike”.

Os cinco episódios que constituem a primeira temporada de “Strike” adaptam de forma bastante fiel os dois primeiros livros, “The Cuckoo’s Calling” e “The Silkworm”. Nos primeiros três episódios, em que vemos o primeiro encontro entre Cormoran e Robin, o inesperado suicídio de uma supermodelo é o mistério a resolver, enquanto que nos dois episódios finais, o desaparecimento de um escritor de romances macabros dá azo a mudanças profundas na dinâmica do par. Para quem conhece as histórias desde os livros, pode parecer um pouco aborrecido rever, no ecrã, os mesmos passos e as mesmas reviravoltas que já vimos escritos nas páginas. E, de certa forma, isso acontece. Mas, como mencionado antes, o grande trunfo de Rowling sempre foi a forma como cria personagens e como elas interagem, e isso nota-se também aqui.

Não vemos / lemos “Strike” pelos mistérios em si, nem pelo trabalho de detective que a ele está associado, mas sim para ver a evolução das personagens, como passam de desconhecidos, a colegas, a parceiros. Não lemos / vemos “Strike” por Lula Landry, por Owen Quine ou pelos clientes que se seguem, mas sim por Cormoran e por Robin. Especialmente por Robin, que é de longe a personagem mais cativante de toda a série e, também, aquela que melhor saltou das páginas do livro para o pequeno ecrã. Sim, Cormoran tem o seu charme, mas Tom Burke parece demasiado “bonito” e pouco derrotado para chegar aos calcanhares da personagem original. Já Holliday Grainger, a quem calhou a honra de interpretar a melhor secretária de Londres e arredores, essa sim, conseguiu encarnar a fundo a Robin que todos amamos, e dar-lhe mesmo um toquezinho especial que é muito bem vindo. Esta Robin pode ser um pouco mais comedida que a personagem que lhe deu origem, mas a determinação e a resiliência que é a sua imagem de marca está lá e, esperemos, vai continuar a crescer. Afinal, aqui por estas bandas, ainda há a esperança que, um dia, Robin passe a ser a personagem principal, e Cormoran o seu side-kick. É que noivos chatos à parte, não há como escapar ao charme de Robin.

Para quem gosta de séries de detectives com um twist, com boas personagens com uma boa dinâmica que vai evoluindo com o passar dos episódios, e também, para alguém que não tem tempo a perder nesta época de tanta oferta, “Strike” é uma boa aposta.

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