Crónicas (T3): A paciência para a televisão

Bate leve, levemente, como quem chama por mim. Será chuva, será gente? Não, é a idade.

Chegar aos 30 parece ser um evento de grandes proporções que toda a gente faz questão de assinalar com um clássico “Então… trinta anos! Agora é que é!”. Na realidade não sei dizer o que “é que é que é” que agora se vai passar uma vez que não notei diferença nenhuma de um dia para o outro. Com uma pequena excepção… a pouca paciência que começo a ter para a TV (inserir música dramática a acompanhar a revelação de uma pessoa que escreve sobre televisão deixar de ter paciência para a mesma).

Na realidade este é um fenómeno natural que facilmente se explica numa só palavra: tempo (ou a falta dele). Há 10 anos, altura da faculdade, dos dias sem aulas e fim-de-semana desocupados o número de séries que existia era bastante inferior ao de agora, sendo por isso mais fácil saber o que dava em que dia e, graças aos websites amigos, estar sempre a par do que aparecia no principal mercado, os EUA.

Na rentrée televisiva o número de pilots a que assistia era vasto, garantindo assim que através desta amostra podia tirar as minhas próprias conclusões do que iria seguir nessa temporada. Nessa altura acabei por ver séries como “Women’s Murder Club”, “The Ex List”, “The Starter Wife”, “Six Degrees” ou “Dirt” tudo séries que hoje em dia provavelmente não iriam merecer sequer a minha atenção mas que acabaram por influenciar as séries que mais tarde acabei por ver, quer pelo criador ou pelo actor.

Hoje em dia antes sequer de começar a ver uma série temos de pensar onde vamos ver: computador, canais nacionais, Netflix, Amazon, etc.. O tempo de espera para os EUA é, para mim, uma das mais-valias da televisão nacional já que a paciência para procurar um site que funcione sem problemas, sem mamas à mostra ou mil pop-ups é diminuta. Conseguir acompanhar todas as séries a estrear é absolutamente impossível por isso cada vez mais me apoio na opinião de sites como o TVDependente antes sequer de olhar para o título. É preciso o feedback ser muito positivo para pensar em pegar numa série nova já que a lista que vem para trás teima em não acabar.

Séries que eu via sabendo que iam ser certamente canceladas já não entram sequer para a lista uma vez que a qualidade dos produtos televisivos é cada vez mais elevada, não valendo a pena investir tempo que não existe numa narrativa que vai certamente ser interrompida sem um final satisfatório. Quando eventualmente pego numa série nova rapidamente a ponho de lado se não me conseguir afastar do jantar que está a ser cozinhado ou da loiça que está a ser posta na máquina. E hoje em dia é cada vez mais fácil isso acontecer uma vez que o número de novas estreias anda pelos 40/50 pilotos entre agora e a midseason, muitos de qualidade duvidosa ou simples repetições de enredos já gastos e isto sem entrar na discussão dos remakes que enchem a programação.

Já há pouca paciência para estereótipos de género, de orientação sexual ou de nacionalidade. Já há pouca paciência para piadas fáceis às custas de outros ou repetidas à exaustão. Já há pouca paciência para narrativas que não avançam, que ficam num will-they-won’t-they repetido de pentágonos amorosos que outras dezenas de séries já exploraram. Com uma dedicação estabelecida com as séries que nos acompanham há alguns anos é preciso uma mistura entre tempo, paciência e um bom piloto para uma série ser escolhida já que hoje em dia uma segunda oportunidade é difícil de conseguir o que tornam aqueles primeiros 20/40 minutos um verdadeiro desafio, não só para os criadores da série mas também para o espectador que rapidamente tem de decidir se este fogo-de-vista inicial se vai manter por um, dois ou mais de dez anos. Posto isto, venham de lá essas más decisões do antigamente e as boas surpresas desta temporada para se fazer apostas de quanto tempo por cá irão ficar.

 

8 thoughts on “Crónicas (T3): A paciência para a televisão”

  1. Concordo com tudo, com a agravante que, por causa deste boom das séries, ainda tenho em lista de espera boas séries a que simplesmente ainda não consegui pegar, como Better Call Saul, Narcos e afins. Um dia, quem sabe, vou conseguir ver mais. Mas uma coisa é certa: estou implacável agora, sou uma autêntica mulher da machadada! Se não me cativa à primeira, muito dificilmente dou uma segunda oportunidade.

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  2. Nesta altura do campeonato, com muito menos tempo disponível, tenho-me dedicado cada vez mais à visualização de séries consagradas. Mais uma vez, agradeço ao Rafa pelas excelentes recomendações. Depois de Sopranos e Mad Men, agora é Six Feet Under que estou a acompanhar.
    Com algumas excepções, raramente pego numa série sem ter boas referências. Não tenho grande paciência para séries que depois são canceladas, ou que se revelam um tiro ao lado (é sempre um risco).

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  3. Bom artigo. Eu também tenho muitas, muitas para ver mas o tempo é pouco.
    Mas eu também sou implacável no que toca a deixar uma série: quando a deixo, deixo-a de vez e não olho para trás.

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