RC (2-8, Out 17): O vibrador, o bulldog e as luvas de boxe

Prepara-se terreno para a chegada de “Mr. Mercedes” ao seu destino. “Room 104” ensaia a emancipação. “You’re the Worst” deixa os cigarros na berma da estrada.

Mr. Mercedes: 1×09 – Ice Cream, You Scream, We All Scream

Cai a máscara de Brady (Harry Treadaway). Bill (Brendan Gleeson) apercebe-se de que o inimigo esteve sempre debaixo do seu nariz, atento a cada passo dado. Dá-se o “desfecho” que a todos tolda a vista, com excepção para o detective e o espectador deste lado do ecrã. Baixam a guarda, dando a Brady carta-branca para levar o seu derradeiro plano avante. Haverá ainda confronto entre ambas as frentes, olhos nos olhos?

Cenário macabro o vivido no interior da casa dos Hartsfield. As moscas rondam o cadáver que Brady não ousa em remover. As baratas rastejam, relembram a dignidade como ausente na morte. Corpo que apodrece diante de nós, em directo contraste com o funeral da mãe de Janey. Uma dinâmica entre mãe e filho que parece saída de “Psycho”.

Já anteriormente o referi e volto a fazê-lo. O grande trunfo de “Mr. Mercedes” reside na dinâmica entre as suas personagens. Num episódio pautado por significativos avanços narrativos, a melhor cena acaba por ser uma de teor bem mais intimista. O momento partilhado entre Bill e Holly aprofunda o passado desta com um monólogo belíssimo. Justine Lupe é uma das grandes surpresas em “Mr. Mercedes”, capaz de jogar com os trejeitos da sua personagem bem como a tentativa de os controlar a fim de parecer “normal”. O seu rosto conta sufoco, desorientação, necessidade de controlo. O seu discurso em torno de um mero bulldog de porcelana é apenas um dos inúmeros exemplos de uma escrita portentosa nas cenas desenroladas com duas personagens.

A nona semana de “Mr. Mercedes” chega de mãos dadas com a renovação para uma segunda temporada.

 

Room 104: 1×11 – The Fight

À semelhança do episódio contado através de dança interpretativa, “The Fight” faz uso de profissionais da área. O mais físico, mais pulsante episódio por entre as pérolas que preenchem a primeira temporada. Aqui o corpo é levado ao extremo, mero veículo à intenção. Rompe, sangra, repete. O quarto 104 funciona como ringue para a revolta de duas lutadoras contra o sistema que as subjuga. Pode-se ir mais longe ao ver tamanha revolta como o grito do sexo feminino direccionado a um mundo idealmente concebido para os homens. Revolução entre paredes.

Se a escrita é irrepreensível e de certa forma revigorante, a realização de Megan Griffiths não merece menos louvor. Trabalho de câmara frenético que acompanha todo e qualquer movimento dado em plena luta, enquadrando com a maior sobriedade cada golpe desferido. A montagem caminha de mãos dadas com o argumento, moldando com avanços e recuos a duração de uma só noite.

Nem mesmo na recta final se abandona o quarto. A câmara aproxima-se do buraco na parede, fronteira entre o ensaio e o real. Atinge-se o clímax da luta somente por via sonora.

Custa a crer em “The Fight” como produto encerrado em meros vinte minutos, dada a mestria e fluidez com que conta a sua história. Sexto episódio da autoria do próprio Mark Duplass, “The Fight” fica na memória como um dos melhores deste primeiro ano de “Room 104”.

 

You’re the Worst: 4×06 – There’s Always a Back Door

Ao sexto episódio, as personagens tentam trazer um pouco do Eu anterior para a postura actual. Lindsay (Kether Donohue) incorre no “erro” de se mostrar tal como é, acabando por se ver incompatível com o seu novo mundo. Personagem que nunca apreciei especialmente, mas que tem vindo a demonstrar crescimento significativo na presente temporada.

Edgar (Desmin Borges) tenta levar a amizade com Jimmy (Chris Geere) para o próximo nível. Tentativa vã defronte ao narcisista-mor. Já está na altura de se desprender dessa influência, ainda para mais quando já encontrou amizade substituta em Lindsay. A quarta temporada de “You’re the Worst” tem dado maior tempo de antena às personagens na sua individualidade em detrimento das situações em grupo. Se nas restantes personagens pode funcionar bem, no caso de Edgar transparece o oposto. Com excepção para o seu transtorno, devidamente controlado neste quarto ano, actualmente Edgar pouco ou nada tem a dizer como personagem isolada. Se a actual temporada é realmente de crescimento para a personagem, porque não mostrar um pouco mais de Edgar no campo profissional, à semelhança do arco a solo de Lindsay?

Num episódio que nunca chega a cruzar ambos os protagonistas, Jimmy engole o orgulho que lhe é tão característico e tenta reaver Gretchen (Aya Cash), sem que fisicamente a procure. Dá-se tarde aquilo que Gretchen tanto queria, que alguém lutasse por ela. Se nas restantes três personagens se denota um percurso ascendente na carreira, no caso de Gretchen conta-se o inverso. Carreira suspensa, à deriva por entre escapismos sexuais. Arranja como substituto alguém com “bagagem” e mais ciente daquilo que quer. A doença mental de Gretchen ainda pode vir a ser fissura à relação. É através dessa possível futura rejeição, que Gretchen se poderá lembrar de outrora ter sido aceite por Jimmy.

Por enquanto, “You’re the Worst” opta por distanciar ainda mais ambas as frentes do casal. Vejamos se o interesse se mantém na individualidade ou se a dispersão irá prejudicar a série a longo prazo.

3 opiniões sobre “RC (2-8, Out 17): O vibrador, o bulldog e as luvas de boxe”

  1. Não acompanho, por agora, nenhuma destas séries, mas não podia deixar de destacar a imagem de Six Feet Under 😀
    Estou quase a terminar a primeira temporada e estou a adorar. Grandes personagens (tantas caras conhecidas), excelentes diálogos, histórias que alternam graciosamente entre momentos dramáticos e cómicos.
    Obrigado pela sugestão Rafa (não falhas uma, eheheh).

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    1. No fundo a escolha da imagem foi uma artimanha para te fazer comentar 😛

      Fico contente que estejas a gostar assim tanto. As personagens são muitíssimo bem trabalhadas, com um crescimento no decorrer de cinco temporadas bastante significativo. E é como dizes, balanceia muito bem a comédia e o drama. E que elenco, tenho a prestação da Frances Conroy como uma das melhores que alguma vez vi em qualquer meio. Há umas semanas revi o último episódio e fiquei novamente maravilhado com aquela entrega. E que vontade de regressar ao início da série, talvez em breve.

      Hei-de falhar quando eventualmente se me esgotarem as sugestões 😛

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      1. A Frances Conroy tem realmente um papel de destaque. Tambem gostei imenso da Lauren Ambrose nesta primeira temporada, tal como do Dexter (:) e do irmão, eheheh. Mesmo as personagens “secundárias”, como a Brenda e o Billy são muito bem trabalhadas.
        A temática vida/morte sempre me fascinou, o modo como lidamos com a perda, com o incerto, com o desconhecido, é muito bem retratado na série. No fundo é mais uma série que não percebo como me escapou durante tanto tempo.

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