RC (9-15, Out 17): Os nostálgicos

“Room 104” despede-se de 2017 com o amor como tema maior. Também “Mr. Mercedes” faz o check-out, não sem antes gritar a plenos pulmões. Quanto a “You’re the Worst”, essa conseguiu entregar o melhor episódio da temporada.

 

Mr. Mercedes: 1×10 – Jibber-Jibber Chicken Dinner

“Mr. Mercedes” é uma boa adaptação da obra de Stephen King. Como tal, merece ser celebrada.

Encerra a sua primeira temporada com um sorriso no rosto. Os heróis triunfam. Sim, há que referenciá-lo como um feito de equipa. Quem diria que Holly (Justine Lupe) se viria a revelar peça tão fulcral? Quem diria que o bulldog serviria o propósito literal de a proteger? O vilão cai sem chegar a roubar mais alguma vida. O momento que ambicionava como a sua obra-prima acabou por lhe ser obra menor. Fim da linha para Harry Treadaway? Enorme interpretação a deste, detentor do mais diabólico sorriso. O seu rosto sofre inúmeras metamorfoses na cena em que finge a morte gradual defronte à câmara. A dar-se a saída definitiva de Brady, que resta à série na temporada que se lhe segue? Um novo assassino em série, que de alguma forma teria de se entrecruzar com o detective reformado? Parece-me mais certa a hipótese do seu arqui-inimigo acordar do sono.

O desenrolar dos acontecimentos que impedem a explosão dá-se com sobriedade, com cada passo a corresponder ao timing certo. Para algo que vinha a ser mencionado por Brady há vários episódios, o desfecho acaba por se revelar um pouco anticlimático. Ainda assim, é com regozijo que se pode testemunhar cada personagem a prosseguir com a sua própria vida. Seria interessante revisitar possíveis danos psicológicos, como no caso particular de Holly que por pouco não matou outro ser humano.

“Mr. Mercedes” despede-se de 2017 com uma sensação de dever cumprido. Até quando?

 

Room 104: 1×12 – My Love

A partir do quinto episódio, foi-se tornando cada vez mais complicado destacar um só episódio de “Room 104” acima dos restantes. “My Love” é mais um que em tudo o complica. Um dos indubitáveis episódios do ano.

A sua posição como episódio final de temporada é significativa, como se a série quisesse relembrar o espectador de que nada mais importa. Tudo culmina no amor. “My Love” é mais um episódio terra-a-terra, sem que nada deturpe uma história de amor que se apresenta no auge do genuíno. O casal de idosos regressa ao local que compartilharam na primeira noite juntos. 56 anos separam ambas as noites, com todas as diferenças que tal acarreta. O espectador é olho que a tudo assiste. A cena de sexo tem tanto de constrangedor quanto de fascinante, dada a tremenda química vivida entre os corpos.

É incrível que em apenas 27 minutos se conte tanto sobre a dinâmica do casal, sem que nunca nada se sinta como apressado. A rotina é transposta para o quarto de hotel, como se fosse apenas mais uma noite na casa de ambos. O programa a que religiosamente assistem. Os exercícios de memória. A perda de capacidades, de pujança. A aceitação do passado que não retorna, de uma existência actual que mais não é que um adiar das horas. Uma escrita colossal que consegue ainda assim ter tempo para respirar e respeitar o ritmo característico da velhice. Aquando da morte, esse autêntico murro no estômago que me conseguiu deixar num turbilhão de emoções, há tempo “suspenso”. Ouve-se a respiração daquele que para trás fica. O que se segue é de partir o coração mais endurecido. Os seus diálogos em jeito de um longo monólogo, incapaz de aceitar que o seu grande amor morreu.

Ainda que o desfecho o contradiga, “My Love” é uma das maiores celebrações do amor alguma vez feitas. “Room 104” conseguiu mesclar inúmeros géneros e emoções numa primeira temporada que merece ser louvada.

 

You’re the Worst: 4×07 – Not a Great Bet

Depois do excelente episódio duplo que teve o condão de abrir a temporada, Stephen Falk regressa à escrita para nos relembrar de que o apogeu de “You’re the Worst” se encontra na sua autoria. À semelhança de “LCD Soundsystem” ou “Twenty-Two”, ambos aqui destacados, Stephen Falk volta a ser precursor de um episódio bem mais intimista. Vinte minutos inteiramente focados na melhor personagem só poderiam resultar no melhor episódio da temporada até então. Curioso que os melhores episódios deste quarto ano não cruzam os elementos do casal e, no entanto, a série tem vindo a sofrer com o afastamento entre ambos.

Gretchen (Aya Cash) chega à terra natal com a vista toldada pelo seu próprio narcisismo. O momento em que pede desculpa à amiga de infância por a ter ignorado nos últimos anos que partilharam, quando na verdade havia sido esta a distanciar-se de Gretchen, é bastante característico da idealização da personagem de que o mundo gira à sua volta. Uma visão deturpada na qual nunca se imaginaria como motivo de exclusão por quem quer que fosse.

“Not a Great Bet” é interlúdio a Gretchen, tentativa sua de obscurecer aquilo que deixa em Los Angeles. Vontade de regredir a uma altura em que nada era ainda complicado. A dura realização? Já não há lugar para si. A cena final é exemplo do quão tóxica se tem vindo a sentir. Olha o recém-nascido nos olhos e afasta-se. Prefere não interferir, não “conspurcar” um ser logo desde o início. Afasta-se em plena consciência do quão sozinha se encontra. Essa janela não mais abre.

 

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