Star Trek: Discovery – (1×07) – Magic to Make the Sanest Man Go Mad (Netflix)

O texto que se segue CONTÉM SPOILERS

“Magic to Make the Sanest Man Go Mad” é o episódio de “Discovery” mais “Star Trek” até à data. Para o bem ou para o mal, dependendo das perspectivas, a série tem optado por um caminho distinto das anteriores séries do franchise. Seja em termos de tom, mais “dark and edgy” como muitos gostam de descrever este tipo de abordagem, ou por ousar em subverter cânones do Universo Trekkie, tem sido bastante obstinada na escolha do seu caminho. Este episódio, no entanto, apesar de trazer consigo o “selo” de entretenimento quase sempre garantido por histórias contadas em loop, deixa-se cair em clichés e incongruências.

Devem ser poucas as séries de ficção científica, ou que misturem fantasia com ficção científica como as de super-heróis, que não tenham pelo menos um episódio em que a acção decorre num loop temporal (ao qual se junta as viagens no tempo e também a existência de realidades alternativas; tenho quase a certeza que “Discovery” ainda lá vai), que são giros mas quase sempre repletos de ideias recicladas e cheios de buracos no argumento. Há sempre algo, entidade ou pessoa, que despoleta o evento; há sempre alguém que escapa às condicionantes de estar preso num loop temporal (o de não se lembrar que se está preso num loop temporal), recaindo sobre essa pessoa tentar convencer os outros de que estão presos num loop temporal; há sempre um evento terrível durante o loop, geralmente na sua fase final, que é preciso evitar que aconteça (e que nós sabemos logo à partida de caras que vai ser evitado no último loop). É como que se houvesse um template, uma Bíblia da Ficção Científica, em que está definido, ponto por ponto, como se deve contar uma história deste género e poucos são aqueles que ousam a desobedecer às regras.

“Discovery”, tal como a maioria, faz um episódio completamente refém destas “normas”. Há alguém que através de um dispositivo dá início ao loop (Harry Mudd); há alguém que escapa às condicionantes do loop (Stamets) e tem de convencer os restantes da existência do mesmo; há consequências catastróficas a evitar (a morte de vários personagens, a destruição da Discovery ou a entrega da nave aos Klingons) que seriam definitivas e definidoras caso não fosse a existência do loop. É “chapa 5”, meus amigos.

Enquanto a mexida na estrutura é apreciada, a forma acaba por ser previsível. Tudo o que pode correr horrivelmente vai terminar bem. Toda a gente sabe isso, logo desde o primeiro minuto. Ignore-se então o resultado óbvio e foque-se na forma como se chega lá.

Um dos maiores problemas dos loop temporais são as inconsistências a que a história se sujeita. Vejamos este episódio em concreto:

  • apesar de haver sempre um reset, há uma clara facilidade em, à medida em que o loop se repete, haver uma maior predisposição para aceitar a sua existência (mesmo com a utilização dum básico “conta-me um segredo para que te possa convencer da próxima vez que te estou a dizer a verdade” não estaria à partida garantido que bastasse isso para que a pessoa aceitasse automaticamente que lhe estavam a dizer a verdade);
  • há acontecimentos e descobertas feitas por personagens que sofrem o reset, mas no segmento seguinte parecem ter retido essa informação (sim, claro que podiam ter ido a correr contar o que descobriram à pessoa que não está presa ao loop e esta lhes tenha voltado a dar a informação, mas isso nunca se vê);
  • em apenas 30 minutos não se faz muito, mas aqui parece resolver-se tudo sem grande dificuldade, sem urgência, sendo que boa parte do tempo até é gasto a dançar;
  • não há grande preocupação em que um dos loops em que a nave explode seja o definitivo (aliás, num deles até se “abraça” a explosão como se esta fosse apenas um soluço e não um hipotético resultado final), quem sabe resultado de um possível mal-funcionamento do dispositivo que potencia o loop (que poderia acontecer, tratando-se de tecnologia, mas nunca iria acontecer porque quem conta a história não quer que aconteça porque não lhe dá jeito; é tudo muito conveniente);
  • usa-se o loop para dar início a uma história de amor (okay, aqui não é uma inconsistência, apenas uma embirração minha).

Há, durante o episódio, uma tentativa de conceder alguma plausibilidade aos possíveis buracos, notando que o loop ocorreu inúmeras vezes, mas soa a desculpa demasiado simplista para justificar incongruências. Já vi episódios do género geniais (há filmes, e séries inteiras até, excelentes), uns cómicos outros dramáticos, que se levam menos a sério ou que convidam à análise. Infelizmente, não enquadro “Magic to Make the Sanest Man Go Mad” em nenhuma dessas categorias.

 

 

3 opiniões sobre “Star Trek: Discovery – (1×07) – Magic to Make the Sanest Man Go Mad (Netflix)”

  1. Concordo em tudo contigo. Até costumo gostar dos episódios sobre loops temporais (que sim, está no cânone da ficção científica, e muito bem) mas este foi demasiado estranho. Foi demasiado estranho por se focar novamente no Mudd, personagem de que não consigo gostar (mesmo sabendo que a sua história no universo ST é maior) e, especialmente, por ser usada como artifício para criar um romance entre a Michael e o Ash. ora, eu não sou avessa a romances na ficção científica, muito pelo contrário – mas têm de ser merecidos, temos de ver uma evolução maior do que esta. Mal se conheceram e já estão apaixonados? Wait, what? Ehhhh… não. Definitivamente não.

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