RC (12-18 Nov 17): Cadafalso dos amantes

O tão aguardado regresso de “Peaky f***ing Blinders”. A despedida de “You’re the Worst”. “Shameless” e a entrada de Frank Gallagher na vida adulta.

Peaky Blinders: 4×01 – The Noose

O gang das boinas afiadas está de regresso com um episódio que logo na sua abertura não poupa o espectador na respiração acelerada. Os nossos heróis a dirigirem-se para o cadafalso, entregues à morte por estrangulamento. Ainda que salvos no último segundo (em “Peaky Blinders” curiosamente não passa tanto como conveniente), este é um limiar de estados que se lhes grava na memória. O laço empresta o título ao episódio, bem ciente do quanto viria a moldar estas personagens. Um ano depois, Polly vê-se como a mais directamente afectada pelo acontecimento interrompido que os interliga. Helen McCrory continua a entregar-se por completo, demonstrando agora uma fragilidade raramente vista numa personagem que teve sempre de estar à altura do sexo masculino. É pouco o louvor para esta actriz que foi ainda dona de uma das melhores interpretações da década em “Penny Dreadful”.

A acrescentar a um dos melhores elencos da actualidade televisiva? Adrien f***ing Brody! Excelente entrada a do actor, inicialmente a deixar entrever pela aba do chapéu apenas um dos olhos. Venha a máfia.

“Peaky Blinders” continua a trazer ao jogo televisivo uma troca de diálogos escolhidos a dedo. Tudo flui muitíssimo bem, com cada cena a ser vital na caracterização destas personagens. As cenas de acção mantêm-se irrepreensíveis. Uma vénia para a cena em que Tommy mata o assistente de cozinha, tal a coreografia que gere o momento. Brutalidade estilizada.

Por mais previsível que fosse, a cena final causa ainda assim um tremendo impacto. Abre alas para uma temporada que promete poder vir a ser a mais frenética até então. De realçar ainda que “Peaky Blinders” faz uso do slow-motion como ninguém, uma marca de água que nunca resvala no exagero e que a eleva ainda mais no estilo.

E quanto à fotografia, essa continua a vestir magnificamente uma das melhores séries actuais. Aqui como exemplo, um enquadramento de Polly por demais subtil, que relembra a sensibilidade de uma série tão urgente e violenta na sua superfície.

 

Shameless: 8×02 – Where’s My Meth?

É por momentos como o compartilhado entre Fiona e Ian no jacuzzi, que vale ainda a pena acompanhar “Shameless”. Rara partilha entre duas personagens, que relembra a tremenda química que interliga os membros dos Gallagher. Numa série tão tresloucada, são sempre bem-vindas as cenas que suspendem o tempo e dispõem sentimentos numa simples troca de palavras. Por muito ausente que Monica se encontrasse, esta simbolizava para Ian a aceitação da doença que os aproxima. Perdê-la é perder igualmente um pouco de si mesmo, sendo portanto esperado que o destaquem como aquele mais directamente afectado. Aproxima-se uma recaída para Ian?

Com excepção para Carl, “Where’s My Meth?” é exímio na forma como distribui tempo de antena preponderante por entre todas as personagens presentes. A possibilidade de Kevin sofrer de cancro da mama surgira na estreia da temporada, apenas para se ver deitada por terra no episódio que se lhe seguiu. Fica a pergunta: para quê? Sim, é certo que trouxe consigo momentos hilariantes (a reacção desoladora de Kevin ao termo “benigno”: Is that good or bad? I can never remember), mas se aparentava poder ser arco narrativo que acompanharia a personagem no decorrer da temporada, rapidamente se encerra como percalço de uma qualquer sitcom que se volta a arrumar sempre no final de um episódio.

É bom testemunhar que a escrita continua a fazer Fiona crescer sem cair no erro de a descaracterizar. Primeiro esta tenta estabelecer uma ligação com os inquilinos e chegar a um meio-termo, visto que por inúmeras vezes os Gallagher se encontraram numa situação idêntica, sendo somente como último recurso que recorre à ordem de despejo.

Depois da torrente de desculpas que o ocupara no episódio anterior, Frank continua a crescer como um cidadão activo da sociedade. Outrora parasita, o novo Frank entra agora na vida adulta. Faz um currículo, arranja um telemóvel, abre uma conta no banco, arranja um emprego. Não sendo um episódio propriamente memorável para o historial de “Shameless”, é muito provavelmente o melhor episódio para Frank em muito tempo, agora que finalmente se tenta trazer algo de novo para a personagem.

 

You’re the Worst: 4×12-13 – Like People/It’s Always Been This Way

A mais inconsistente temporada de “You’re the Worst” até à data, deixa uma marca positiva na despedida. Por mais pobres que tenham sido as inúmeras peripécias no seu decorrer, na grande maioria carregadas às costas por Edgar, a temporada propôs-se maioritariamente a desenhar novos contornos para as personagens. Somente na ausência um do outro, ambos os protagonistas viriam a elevar na importância aquilo que os interliga. Ao longo da dupla de episódios, trocam as voltas ao espectador por inúmeras vezes. Chega-se à meta com uma cena final diametralmente oposta à da temporada anterior. Desta feita, “You’re the Worst” despede-se com um sabor a reunião. Regressam aos braços um do outro, agora cientes das fragilidades na individualidade. Temporada talvez necessária, como reforço a uma relação que pode vir a crescer ainda mais. Uma coisa é certa, nesta que foi a sua maior prova de fogo, a de separar os dois pilares, a série ocasionalmente falhou. Só veio demonstrar fragilidade numa narrativa que sofreu com o afastamento das duas melhores personagens. Não obstante isso, sente-se um satisfatório fechar de arco no que diz respeito a Gretchen. Já aqui a elogiei por inúmeras vezes, mas a verdade é que Aya Cash continua a fazer por se elevar aos restantes elementos do elenco.

Na recta final, Lindsay tem mais uma das suas epifanias, nesta enxurrada de inteligência tardia que a tem vindo a rondar. Dá propósito ao trio de personagens secundárias e pavimenta um dos arcos narrativos que irá preencher a quinta e última temporada. De louvar a decisão de impor uma meta próxima à série, antes que se venha a desgastar ainda mais. O casamento de Jimmy e Gretchen tem tudo para ser um fechar de ciclo no mínimo interessante para uma série que sempre se propôs a ser atípica no que diz respeito a uma relação amorosa.

 

2 opiniões sobre “RC (12-18 Nov 17): Cadafalso dos amantes”

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