RC (26 Nov-2 Dez 17): As fantasias interrompidas de Lip Gallagher

Uma velha cara vem testar os alicerces de “Shameless”. Gastam-se mais balas em “Peaky Blinders”.

Por mais frágeis que possam ser as ligações, é sempre interessante ver como se interligam duas séries tão díspares quantos estas. Lado a lado pela terceira semana, ambas testam o seu respectivo protagonista com a memória de um passado interrompido.

Peaky Blinders: 4×03 – Blackbird

Cillian Murphy dispõe continuamente uma postura inabalável, carapaça às emoções de ordem maior. Quando lhe é entregue a fotografia do antigo “eu”, denuncia-se o desespero pelo autocontrolo. Lembrança de um ser que a guerra ainda não havia violentado. Ainda que essa pequena nostalgia pelo passado seja conseguida com subtileza, chega quase como que conveniente num episódio que nos apresenta Polly como inimiga de Tommy. A reviravolta final não deixaria de ter impacto na ausência deste ponto fraco de Tommy. “Blackbird” é ainda assim um excelente episódio que encerra a primeira metade da temporada com chave de ouro.

Murphy e McCrory. Dupla de actores continuamente destacados no plano de excelência. E quanto a Paul Anderson? Nunca esquecer este corpo entregue à raiva, que em “Blackbird” marca o regresso em todo o seu esplendor depois de um interlúdio religioso com Linda. Manipulado por todos em redor, acaba por ouvir a razão e rescindir à sua faceta animalesca. O conflito interior de Arthur é exibido exteriormente, numa interpretação que joga com o sufoco que sente por não conseguir preencher as posturas díspares que dele exigem. Máquina de guerra ou homem de família sem objectivos no horizonte. Disparar a arma para o vazio é abdicar da tradição que o dita como o carrasco. Novos tempos para “Peaky Blinders”.

Com três episódios ainda por oferecer e com uma quinta temporada encomendada, “Peaky Blinders” não demonstra ainda quaisquer sinais de uma queda na qualidade. Encontra-se, aliás, numa das suas melhores fases criativas e palco activo na caracterização e crescimento das personagens presentes desde o piloto.

 

Shameless: 8×04 – Fuck Paying It Forward

Novo teste a “Shameless”. Depois das aparições de Monica e Mickey na temporada anterior, essa que foi palco a significativas mudanças, chega a vez de Sean (Dermot Mulroney) marcar presença na vida reconstruída de Fiona. Uma hora televisiva que nos relembra a excelência de Emmy Rossum, actriz um tanto ou quanto subvalorizada quando colocada ao lado de um actor com provas dadas como o é William H. Macy. Chega a ser desconfortável de testemunhar a fragilidade de Fiona ao colocar a hipótese de Sean ter voltado para a reaver. Por mais forte que se tenha vindo a tornar, reside ainda a incapacidade de voltar a confiar noutra pessoa. Assim se denuncia, como danificada. No fim, teste superado e história de cabeceira. Apenas mais uma investida daquela que gradualmente se torna a nova estrutura de “Shameless”, a de reaver preponderantes personagens do passado para confrontar a resiliência das demais.

Aparte os incidentes que cobriram a hora televisiva de Fiona, fraquíssimo episódio, quebra na qualidade ascendente da recta inicial da temporada. É certo que a dinâmica entre Kevin e V é sempre engraçada de acompanhar, dada a química que os interliga, mas nem mesmo isso salva um episódio que só quis colocar toda e qualquer personagem com algo em mãos. Desde Carl com as armadilhas a Lip com as erecções constantes, “Fuck Paying It Forward” pouco ou nada teve de interesse para oferecer. Lip simplesmente acorda e coloca num canto distante da mente o amigo que ameaçou suicídio? Não seriam os meros testemunhos encomendados por Lip que viriam a curar o professor. É certo que este pode vir a ser motivo recorrente no curso da temporada, mas colocá-lo de lado logo após tamanho ponto crítico só revela fragilidades na escrita. Depois de um episódio tenso que os colocou a todos sob a mesma ameaça, aquele que se lhe seguiu quis somente aligeirar o ambiente com laivos de comédia preguiçosa.

2 opiniões sobre “RC (26 Nov-2 Dez 17): As fantasias interrompidas de Lip Gallagher”

    1. Destaquei pela “positiva” somente por comparação com as restantes histórias que achei ainda piores. Porque de facto não era propriamente necessário, tudo aquilo que a Fiona admite já era subentendido. Mas também não acho que quebre a evolução dela, pelo menos por agora, pareceu-me mais um momento fugaz de fragilidade. Já começo a pensar que personagem irá aparecer em seguida…

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