Dark (T1): Na sombra de nada

O texto que se segue NÃO CONTÉM SPOILERS

“Dark” é o título da primeira produção germânica para o Netflix e diz-nos metade daquilo que precisamos para perceber do que trata esta nova série. A tagline, “The question is not where. But when”, diz-nos o resto. Não há que enganar.

A chuva constante, a frieza das sombras, as paisagens verdejantes mas soturnas, a banda sonora ominosa que marca o compasso, são elementos que pautam um ambiente depressivo que a série nos propõe como viagem. O prólogo não engana: esta não é uma série de homenagem aos anos 80 e às aventuras de Spielberg protagonizada por miúdos castiços que vão caçar monstros com o final feliz no horizonte. Não, as comparações entre “Dark” e “Stranger Things” são tão despropositadas como aquelas entre “Stranger Things” e “The OA”. Em “Dark”, tal como em “The OA”, estamos perante um produto livre da ânsia que querer ser popular. É uma série para nichos, para puzzle makers e puzzle solvers, para aqueles que absorvem os pormenores da narrativa como se de um livro se tratasse, e para quem não se deixa derrotar por resoluções desatadas (dica, sem ser spoiler: tomem atenção aos primeiros minutos da série pois serão importantes para acompanhar a mesma).

A premissa é simples e até pouco original: uma cidade em choque após o desaparecimento misterioso de um jovem, três décadas depois de um outro ter desaparecido em circunstâncias similares. O quê e quem são as questões que imediatamente vêm à ideia, mas a série tem um truque na manga e diz-nos que estamos a fazer as perguntas erradas. A certa: quando?

Este revelar tão público (está escarrapachado no poster) de um elemento determinante para a história é chave-mestra demasiado evidente. Talvez tivesse sido melhor guardar o segredo, deixar-nos partir à descoberta, apesar dessa nudez imposta não retirar à série a sua engenhosidade. Até porque essa (a sua engenhosidade) não reside na sua originalidade, mas sim na sua organização. Trata-se de uma teia complexa que se vai desfiando naturalmente, solucionando o puzzle de forma orgânica e organizada. Isso implica que algumas resoluções sejam previsíveis, é verdade, mas predominantemente ressalva a coesão narrativa.

Ao mesmo tempo, vamos conhecendo um conjunto de personagens, simples à primeira vista, mas complexos a cada face que lhe descobrimos.

Esqueçam “Stranger Things”, ignorem as comparações de visão curta, e imaginem antes uma prima afastada de “Twin Peaks” (mais sã mentalmente) e encontrarão em “Dark” motivos de sobra para terminar em grande, televisamente falando, um já bem fértil ano de 2017.

 

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