Crónicas (T3): A magia de aproximar gerações

Há dias, revelei todo o meu desdém pela versão de 2017 de “Murder On The Orient Express”. De forma a contextualizar o repúdio demonstrado, lembrei-me de republicar um texto originalmente publicado há mais de quatro anos, mas que ainda hoje reflecte o meu apreço pela série que deu vida a uma das mais icónicas personagens entre aquelas criadas por Agatha Christie.

Aqui fica.

Há algo de mágico em ficção que atravessa os tempos e percorre gerações. “Mágico” é um adjectivo demasiado sentimentalista, mas não encontro melhor termo para descrever a sensação que se instala ao reencontrar personagens que parecem envelhecer ao nosso lado.

No que toca ao cinema, o melhor exemplo que me ocorre é a intimista e absorvente trilogia de Richard Linklater, “Before Sunrise”, “Before Sunset” e “Before Midnight”, onde em dois saltos de nove anos conhecemos e reencontramos os mesmo dois personagens, encarnados pelos mesmo dois actores, e nos fazem sentir como se estivéssemos a reencontrar velhos amigos.

Na televisão, a experiência é diferente. Muitas séries duram anos a fio e esse acompanhamento da evolução das personagens é-lhe intrínseco e vital, mas se a televisão tem o poder de estimular a familiaridade, o facto da história ser revelada num longo espaço de tempo não deixa aquele verdadeiro sentimento a saudade. Falta-lhe a capacidade para criar nostalgia.

Mas há excepções e “Agatha Christie’s Poirot” é uma delas. Não em termos do sentimento de que as personagens nos acompanham lado a lado, porque a sua linha temporal é algo restrita, situando-se em apenas alguns anos da década de 30, mas porque a própria série o faz. Tinha oito anos quando estreou (não quando a vi pela primeira vez, pois esse momento escapa-me da memória) e terei trinta e dois e meio quando terminar (segundo consta, a data do último episódio será no próximo dia 13 de Novembro). Serão apenas 70 episódios, o que ao lado do que é feito actualmente não é nada, mas a forma como foram apresentados ao longo dos anos concedeu-lhe um sentimento de nostalgia que a diferencia das demais. Uns podem argumentar que esses longos hiatos ser-lhe-ão de alguma forma prejudiciais, pois tanto tempo de ausência acaba por fazer certas pessoas deixarem-na cair no esquecimento. Outros, como eu, acolhem de braços abertos o sabor da nostalgia.

E não só.

Sendo uma série que atravessa gerações, carrega consigo uma capacidade de fortificar os laços geracionais, laços esses muitas vezes barrados pelas distintas formas de estar na vida que cada um adopta. Por melhor que seja a relação entre um filho que venera a televisão com um pai para quem a “caixinha mágica” serve pouco mais do que para ver emissões desportivas e noticiários, há em séries como “Bonanza”, “MacGyver”, “Dallas” ou “Poirot” potenciais pontos de encontro. Mas as duas primeiras há muito que fazem parte da História, enquanto a terceira esbarra na diferença entre preferências. “Poirot” é essa ponte, onde estas duas gerações se encontram a meio e descobrem que têm algo mais em comum do que o próprio sangue ou as preferências clubísticas. E não há melhor sensação que se consiga retirar de uma obra de ficção do que a possibilidade de a podermos partilhar com aqueles que nos são mais próximos.

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