Crónicas (T3): Ruídos sociais

Muito falatório “facebookiano”, muita teoria “twitteriana” ou muito espasmo intelectual “virtual-social” dão muitas vezes cabo da uma boa série ou transformam uma série mediana numa série muito falada.

As redes sociais mudaram muita coisa mas hoje fixo-me no que diz respeito àquilo que nos move neste site: a televisão. Séries muito badaladas sempre as houve (e antes mesmo da internet existir fora dos muros militares) mas a forma como a mensagem é passada mudou muito. Não querendo ir tão longe como “Dallas” ou “Twin Peaks” (sim, por incrível que pareça já se falava de twists e teorias nessa altura), uso dois exemplos mais recentes: “Lost” e “Battlestar Galactica”. Séries que deixaram a sua marca a vários níveis e que eram minuciosamente detalhadas cada semana (até mesmo durante as normais pausas entre temporadas).

O lugar de encontro de tais teorias era, regra geral, um fórum especializado sobre televisão ou um site dedicado à própria série. A oferta era imensa e de tal nível, que era difícil acompanhar tanta imaginação. Por vezes parecia que eu não tinha visto o mesmo episódio pois metade das coisas passavam-me ao lado. Se é verdade que esses sites tinham imensas visitas e participação, também é de realçar que eram sempre vistos como um nicho de mercado. Era quase para uma minoria muito barulhenta: sedenta de mais informação, mais explicação ou simplesmente de uma saudável troca de ideias. Havia muito barulho virtual mas era contido. É como se estivéssemos aos gritos num quarto à prova de som. Só quem lá estava apanhava com os decibéis. Agora não.

Vejamos só dois exemplos: “Game of Thrones” ou “The Walking Dead”. Quando as mesmas estão em exibição, basta frequentar qualquer rede social para apanharmos com uma berraria de spoilers, de pormenores insignificantes, de curiosidades dos bastidores, de revelações e de tudo o mais que possa gerar barulho e nausear-nos até a um ponto em que já nem sabemos muito bem se o episódio ainda terá algum impacto em nós.
Tal “guerra” é feita não só pelos fãs mas também pelos responsáveis da série e demais sites especializados (sejam eles os tradicionais órgãos de comunicação ou aqueles que somente existem em formato digital). Interessa falar por falar, mesmo que seja para enganar (o típico clickbait) ou para dizer/mostrar o óbvio. Juntem-se os comentários sociais dos actores (felizmente que há muitas excepções) e temos uma avalanche de hype e histerismo. Podemos falar que houve uma democratização do comentário fácil e gratuito (“Bolas. O Manel morreu neste episódio”, “Então a Josefina fica grávida e vai para a guerra?”) que nada acrescenta a uma saudável discussão e só desvirtua a experiência de partilhar ideias.

A ânsia de algum protagonismo “virtual-social” (“Ahhhh. Acabei de ver o episódio em directo dos EUA. O Manel afinal não morreu e a Josefina tem uma apendicite”) tolha-nos muitas vezes de pensar antes de escrever. É claro que há muitas excepções mas a maioria usa e abusa de tal protagonismo para “acrescentar” algo que, das duas duas: estraga a visualização de quem ainda não viu e estraga a experiência de ver uma série longe da histeria “virtual-social”. Um fogo lento cozinha melhor que um fogo rápido e fugaz.

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