Black Mirror: 4×01 – USS Callister (Netflix)

O texto que se segue CONTÉM SPOILERS.

Assim que surgiram as primeiras informações sobre o episódio inicial da quarta temporada de “Black Mirror” que “USS Callister” se destacava, pois não só a sua (aparente) homenagem a um dos maiores fenómenos da cultura pop existentes (o franchise “Star Trek”) se demarcava daquilo a que a série usualmente propõe, como acentuava um sentimento, originado na temporada anterior, de que a série de culto do Channel 4 teria cedido completamente ao “lado negro da Força”, ou seja, ao populismo imposto pela sua chegada ao Netflix.

Mas enganem-se aqueles que, como eu, acham que a visão de Charlie Brooker se comprometeu na sequência da venda da sua alma ao Diabo. Pelo menos, com “USS Callister”, do qual posso afirmar ter-se tornado um dos meus episódios favoritos de toda a série, fez-me voltar a acreditar que, como autor, Brooker ainda mantém intactos alguns dos elementos que me fizeram tornar fã de “Black Mirror” em 2011.

Logo à partida, por não encontrar em “USS Callister” qualquer tipo de homenagem. Na verdade, é de forma bem lúcida que Brooker e companhia apontam o dedo à cultura machista e até alguns laivos de racismo perpetuados durante muito tempo pelas séries do género, nomeadamente a “Star Trek” original, o claro alvo da crítica. É também bastante notório, através das reacções, sejam faciais ou corporais, da personagem de Cristin Milioti, aquando da imposição a que é sujeita em participar na trama do jogo, relativamente à imbecilidade das histórias e, sobretudo, diálogos, tão característicos da série em questão.  E, por último, também não me parece despropositado afirmar que existe uma óbvia correlação não só no facto do vilão da história ser obcecado pela série como por ter optado em moldar o purgatório que criou para aqueles de que não gosta à imagem dela.

O que me fez apaixonar por “Black Mirror” foram a forma como subverte ideias pré-concebidas e a dualidade que nos propõe, estimulando a variedade de interpretações. Há uma linha ténue a separar o preto do branco e a série gosta de trilhar o seu percurso nela. Vive do cinzento e assume-o.

Em “USS Callister” sente-se esse ziguezaguear entre versões da realidade, onde, por exemplo, o vilão tem razões para a sua vilania, mas as quais perdem a sua força a partir do momento em que ele rejeita deixar de ser vilão. O personagem de Jesse Plemons começa como o pobre coitado, desprezado pelos demais, sem lhe darem o devido crédito pelas suas conquistas, aquele por quem queremos torcer e aquele que até queremos perdoar por alguns actos menos próprios. Mas, a partir do momento em que ele claramente rejeita qualquer oportunidade de redenção, não há como sustentar a sua existência. 

No sentido inverso, o personagem de Jimmi Simpson, que em boa parte do episódio é ilustrado como aquele a desprezar, revela-se o mais redimível e a partir do momento em que assume genuinamente a sua quota de responsabilidade na criação do vilão e daquele purgatório em que se encontram, não há como não lhe perdoar o “fuck you!” no final do discurso.

Já a personagem aparentemente frágil incorporada por Cristin Milioti rapidamente se despe de clichés perpetuados pelas comédias românticas de Hollywood e veste o fato de guerreira tão típico da mulher do século XXI. Brooker aponta sempre a um rompimento dos estigmas que nos foram sendo impostos ao longo das décadas e ainda perpetuam graças à sociedade que nos construíram e a que somos diariamente expostos.

Com três prestações de qualidade, “USS Callister” peca sobretudo na incapacidade de caracterizar devidamente o restante conjunto de personagens que compõem a sua história. Revelam pouco propósito a não ser o de servir de apoio aos três protagonistas. Apenas se destaca a personagem de Michaela Coel, mas mais pela sua irreverência do que propriamente pela sua profundidade (para quem não conheça a actriz, espreitem a comédia “Chewing Gum“, também disponível no Netflix).

“Black Mirror” sustenta a sua força no convite à reflexão e mesmo que todos os episódios apontem a esse objectivo, a execução nem sempre lhe permite alcançar um nível de excelência. Mas “USS Callister” consegue-o.

Um pensamento em “Black Mirror: 4×01 – USS Callister (Netflix)”

  1. Grande regresso este de “Black Mirror”. Gostei imenso do episódio, e especialmente do desfecho: não só é um desfecho positivo (algo raro nesta série), mas tem uma óptima premissa: uma nova nave, uma nova equipa constituída por avatares, e uma capitã ao comando. Genial!

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