Black Mirror: 4×03 – Crocodile (Netflix)

O texto que se segue CONTÉM SPOILERS.

“Crocodile” quer atrair-nos com as suas paisagens gélidas e quase monocromáticas, como se o contexto fosse desprovido de energia e sentimento. A palidez visual é o aviso que precisamos para saber o que se segue. Com um golpe previsível, a sua história rapidamente nos arrasta para as profundezas duma escuridão tão envolvente como depressiva, numa viagem com apenas um destino possível. Estamos na era do “dark and edgy” e “Black Mirror” notabilizou-se nesse capítulo. Há que fazer jus ao estatuto adquirido. Pena que o episódio se sinta como um regurgitar… de ideias, de conceitos, de tudo.

A originalidade de “Black Mirror” passa muito por um stock limitado de homenagens e influências do seu autor. Num espectro de ficção televisiva tão amplo como o actual, em que a repetibilidade de ideias e conceitos é tão acentuada, predispõe-se a uma certa tendência em glorificar tudo aquilo que é, aparentemente, distinto, mesmo que, muitas vezes, essa aparente espontaneidade criativa seja meramente uma inflexão.

“Crocodile” é uma manifestação desse síndrome, onde uma história banal, com desenrolar previsível, é banhada com um twist incomum: a existência de um equipamento, uma máquina, que consegue traduzir memórias em imagem e som. Esse toque de Midas, no entanto, facilmente teria saído de uma mente como a de Philip K. Dick, Isaac Asimov ou Arthur C. Clarke (entre outros), que há várias, bastantes, décadas profetizaram muito do mundo em que hoje vivemos e muito do que certamente as gerações vindouras viverão.

Como se percebe por vários episódios da série, Charlie Brooker tem realmente um dom na desconstrução das suas inspirações. Mas noutros, como este “Crocodile”, transparece o peso da responsabilidade em dar ao mundo aquilo que o mundo lhe exige: êxtase, apresentado de qualquer forma; orgânico ou supérfluo, o que interessa é que exista. O melhor exemplo disso é o final deste episódio, onde o (já tradicional) murro no estômago se transforma em dedo no ânus, onde a reviravolta que nos deveria proporcionar reflexão (murro) não é mais que um mero estímulo libidinal (dedo) para aqueles que se satisfazem dessa forma.

 

Um pensamento em “Black Mirror: 4×03 – Crocodile (Netflix)”

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