Adorar a Deus e amá-lo sobre todas as coisas

A pretexto dos dez mandamentos, um agnóstico assumido pega nas regras essenciais da religião que moldaram o mundo ao longo de séculos e aplica-os à ficção televisiva.

Chegamos ao Natal (e à Páscoa) e as televisões travestem-se de um diáfano manto religioso. São programas para a família, mas especialmente sobre o universo religioso. O nascimento de Cristo e o seu martírio e ressurreição. Os mártires, os santos, os profetas, a Mãe, os pastorinhos, os milagres… O rol é quase infindável, traduzindo mais de dois mil anos de História.

Em países por toda a Europa, onde predominam os estados laicos, a aparência que as televisões dão é a de uma súbita conversão. De uma epifania religiosa. Como se Deus, ou o divino, se transmitisse por fibra óptica a todos nós que ao longo do ano nos afastamos do sagrado para dar azo ao mundano e ao profano. Os canais televisivos “enleado de emoção beata”, como diria Eça de Queiroz no seu (magnífico) romance “A Relíquia”, pela voz de Teodorico, subitamente aparentam aspirar à santidade, perdoando-se sazonalmente dos desvarios do antes e preparando o pecado do depois.

As festas televisivas engrandecidas por série e filmes bíblico-religiosos são o compasso de espera, a contrição, até ao próximo pecado televisivo. Ou, como no referido romance de Eça de Queiroz, diria Raposão, antes de mergulhar nos braços da sua amante para – uma vez mais – incorrer em pecado “Eu fechei a vidraça: e depois de ir ao corredor fazer às escondidas um rápido sinal da cruz vim desapertar sofregamente, e pela vez derradeira, os atacadores do colete da minha saborosa bem-amada”. Parece ser esse o papel da televisão nessas datas. Respeitar as festas religiosas, mas logo a seguir voltar ao fogo de artificio televisivo repleto de violência, sexo e valor comercial.

No entanto, se calhar as coisas não são exactamente como aparentam ou descritas acima.

Houve um tempo em que televisão que era televisão, chegado ao Natal e à Páscoa procuravam programar uma oferta televisiva que fosse essencialmente direcionada à família. A televisão ocupava o centro da vida. A família reunia-se à sua volta (como antes da rádio e ainda antes dos mais velhos que contavam histórias de monstros, bruxas e fadas). Assim, nada como uma época festiva recheada de missa (dominical e do galo) e de filmes e séries que narrassem a vida de Cristo. Aliás, durante muitos anos, foi tradicionalmente nestes períodos que estreavam séries e filmes de impacto mediático e por todos aguardados com expectativa.

Todos conhecíamos a receita. Sabíamos que tínhamos direito a um “Do Céu caiu uma estrela”, talvez a “Ben-Hur” e sempre a uma qualquer adaptação bíblica da vida de Cristo. E houve uma infinidade. Por vezes, com sorte(?), um pouco de “Jesus Christ Superstar”. E nunca, mas mesmo nunca, “A Vida de Brian”, filme que desconfio, ainda hoje será impossível de ser transmitido naquelas datas.

Depois, reflexo dos tempos e da alteração do consumo de ficção, as coisas começaram a mudar. Actualmente, entendemos por dias festivos da família acompanhados pela televisão um filme da Pixar ou da Disney, seguido por um filme de acção com perseguições e tiros em rajada, intervalado por uma série sobre a Bíblia e uma comédia sobre o Pai Natal. Ou seja, Cristo convive com o Pai Natal, um santo de origem turca a quem foi criado uma mitologia própria ao que dizem graças à Coca-Cola; e a mensagem religiosa convive com o comércio. Aliás a convivência do religioso com o pagão nestas épocas festivas é um diálogo curioso sobre a encruzilhada civilizacional a que estamos acometidos e que não têm lugar neste escrito, a não ser o do registo dessa perplexidade.

Se pudéssemos recorrer a uma imagem bíblica sobre aquilo que a televisão é actualmente, seria a dos vendilhões do templo nos quais os princípios são vendidos ao vil metal, melhor, à ditadura das audiências (que hoje nos dizem o que querem ver, ou outrora quem preferiam condenar). Mas a televisão move-se. Da superficialidade tem passado para a densidade ao nível da ficção televisiva. São imensas as extraordinárias séries de televisão. Em menor quantidade aquelas que questionam o sagrado de forma profunda e coerente. O lugar de Deus, na ficção televisiva.

Na maioria das vezes é, uma vez mais, para o fogo de artificio. Para consumo rápido, atrair audiências, entreter. Um exemplo simples: “Supernatural” que faz uso da mitologia cristã de forma curiosa, mas no qual Deus tem um papel central no dispositivo narrativo mas uma abordagem superficial. Mais, as criaturas de Deus parecem imbuídas de um complexo de Édipo que o levam a matar. Isto para não referir Nietzsche.  Ou mais extremo (e qualidade diversa): a série “Lucifer” e as referências que um Diabo fatigado, detectivesco e vigilante, tem sobre o Criador. E poderíamos continuar a enumerar muitas outras séries no qual Deus é pretexto para a acção, sendo sucessivamente secundarizado na sua importância.

Mas nem tudo é mau neste panorama. Felizmente temos séries que abordam a questão do divino e do religioso de forma profunda sem que seja o elemento óbvio na narrativa. E por vezes vêm de onde menos se espera.

Não resisto a um universo com uma linguagem muito específica: o da Ficção-Científica, uma área que muito me agrada e ao qual um dia voltarei. São diversas as séries que criam religiões próprias e que servem o seu dispositivo narrativo, muitas vezes para lá de uma mera ilustração ou de uma adequação dramática áquilo que se conta. O reboot de “Battlestar Galactica” – atrevo-me a arriscar – talvez tenha sido a série que mais maduramente tenha reflectido sobre a questão do divino e o papel do ser humano no universo. É, surpreendentemente, uma ficção-científica filosófica e que sem se referir constantemente a Deus, nos conduz sobre as perplexidades do divino na condição humana.

Mais recentemente três séries mediáticas trouxeram o divino para a arena da ficção televisiva de qualidade. Com resultados diversos e densidades intermitentes.

A primeira, apenas porque é interessante a sua referência: “Game of Thrones” e o confronto de duas religiões, a dos Deuses antigos e dos novos (e ainda outras menores) que são pretexto para lutas políticas e símbolo de um mundo em mudança, mas que não teme essa mesma mudança. Do ponto de vista ficcional, são religiões criadas sobre a mitologia de outras religiões existentes. São irregularmente exploradas na série, mas essenciais para a sua acção. Numa linha não muito distante desta, embora com mais profundidade, temos o confronto em “American Gods”, do qual prefiro não aprofundar por ainda não ter terminado o seu visionamento.

“The Handmaid’s Tale” é um dos grandes exemplos do discurso ficcional narrativo sobre o divino e do lugar do ser humano. Uma distopia baseada num extraordinário romance, no qual a lei bíblica está omnipresente com referências aos textos sagrados e no qual aqueles livros são a letra da lei da comunidade e os próprios grupos/classes sociais fazem referência à Bíblia, embora de uma forma corrompida aos interesses do Homem (e do homem), como aliás historicamente sempre aconteceu como nos mostram as grandes convulsões da humanidade.

Mas, pessoalmente, será na actualidade “Westworld” que melhor personifica a busca do ser humano do seu lugar no universo. E é curiosa a dicotomia: por um lado os criadores afastam-se de Deus (tornam-se Deus); por outro, as criaturas buscam Deus. Serão inúmeras as interpretações que poderemos retirar ou as leituras a fazer, mas é inegável a densidade filosófica e religiosa que por vezes provem de onde menos se espera, seja em “Westworld” ou “Battlestar Galactica” séries que estão para lá da ficção científica e incorporam em si o questionamento da humanidade e de Deus.

Mas não nos ficamos unicamente pela ficção televisiva. O documental também ocupa o seu espaço sendo de sublinhar a excelente série documental “The Story of God”, narrada por Morgan Freeman. Questiona-nos sobre o papel de Deus (em diversas religiões). Ou melhor do papel que esperamos de Deus. E, de passagem, do papel que ambicionamos na eternidade.

Deus não passou de moda. Continua a suscitar interesse (visível e privado). Não saiu da agenda dos canais ou da ficção. Ocupa o seu espaço muitas vezes reflectindo o interesse mundano das audiências, outras vezes reflectindo programas políticos (por exemplo com as teorias criacionistas), havendo quem ambicione um maior destaque no espectro televisivo. Não é, desta forma, de espantar tantos canais religiosos que surgem e que efectuam uma leitura demasiado literal e humana daquilo que é divino e a cada um toca (deveria tocar) de forma pessoal.

Deus está para ficar e acredito que com abordagens crescentemente mais maduras e densas e, infelizmente, com outras demasiadamente literais reflectindo a ambição de determinados grupos.

2 opiniões sobre “Adorar a Deus e amá-lo sobre todas as coisas”

  1. É temática que me interessa bastante, apesar de não ser nada religioso. Temos tido propostas realmente interessantes, como bem citas. Mais recentemente “The Young Pope” foi uma que gostei imenso, sendo essa abordagem muito mais directa claro está. No curso da temporada dão-se ali interessantes debates de personagens que colocam tudo em causa. “The Path” é outra a tentá-lo (uma religião fictícia que pisca imenso o olho à Cientologia) mas que pessoalmente não recomendo, nunca atingindo o seu verdadeiro potencial. Entre todas as séries que vi nos últimos anos, creio que “The Leftovers” o rondou melhor. O “Arrebatamento” selectivo como ponto de partida e catapulta para as vias científica e religiosa, os constantes testes à fé, etc.

    Excelente artigo Rui!

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  2. Muito bom!É uma temática muito interessante, que por vezes carece de maior profundidade na tv.
    The Leftovers é capaz de ser a série que melhor aborda a temática, pelo menos nos últimos anos (pelo menos daquilo que vi). BSG tinha também uma forma muito peculiar de abordar a religião. Ambas deixam bastantes saudades.
    Atualmente estou a ver SFU, com muitos episódios que abordam a religião (indiretamente abordam todos, eheh).
    The Story of God vou começar a ver esta semana. Tenho grandes espetativas.

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