Não usar o Santo Nome de Deus em vão

A pretexto dos dez mandamentos, um agnóstico assumido pega nas regras essenciais da religião que moldaram o mundo ao longo de séculos e aplica-os à ficção televisiva.

Das coisas mais complicadas na televisão, ou mesmo na vida de cada um. Desde logo com um limite: o que significa “em vão”? E como definir que em ficção o uso do Nome é “em vão”? Pela qualidade da série? Pela temática da série? Ou pelo contexto da série no qual é proferido?

Mas não deixa de ser curioso que serão poucas as séries que não utilizam expressões que possam referir e encaixar nessa qualidade. Ou mesmo séries que pela sua temática tenham essa componente.

Não falo das ultra-carregadas sequências de impropérios e interjeições como o desesperado “for goodness sake”, o incrédulo “oohh mmy góóód”, o irritado “hell”, ou o sexual “oh god, oh god, oh god!” ou do beato “holy fuck”..

Falarei da importância que a invocação de Deus, do seu nome e da sua mitologia ocupa hoje no espectro da ficção televisiva. Um exemplo curioso e que se tem vindo a sedimentar como um programa (pop)ular, “Supernatural”, poderá ser um exemplo da invocação do divino em vão até pelas próprias liberdades artísticas que toma. E aqui permitam-me uma muito ampla utilização do termo artístico. Não querendo ser elitista, creio que arte é outra coisa; neste caso serão, eventualmente, liberdades narrativas.

Julgo que todos conhecerão sobre o que é a série. Dois irmãos herdam a missão de lutar contra o “mal”. Nas primeiras temporadas lutam contra monstros avulso, muitos saídos da cultura popular ou folclore de diversas culturas, com um toque no religioso que não seria predominante. A partir de certa altura a abordagem passa a ser claramente religiosa. Cristã, sim, mas igualmente mergulhando fundo na cultura judaico-cristã, tocando nas interpretações evangélicas próprias dos EUA. Nessa nova dimensão temos uma mistura do imaginário bíblico com enfoque em anjos (caídos e em legião), inferno, purgatório e… Deus.

É certo que são apenas os nomes bíblicos que são invocados, com uma mínima contextualização religiosa, apostando do ponto de vista narrativo na introdução dos personagens bíblicos a referencias dos espectadores americanos.

A questão da invocação, discute-se aqui: até que ponto será pertinente este tipo de abordagem? Não nos esqueçamos que o Céu está numa revolução, com guerras entre anjos, alianças com demónios antigos, usurpação do Diabo e um Deus ausente. Respeitará crenças? E não estará a misturar de forma descontextualizada referências religiosas que são o suporte ético e moral de grande parte do mundo?

A questão complexifica-se quando nos apercebemos que os anjos não são os tradicionais agentes da paz e do bem, antes criaturas com vícios muito humanos. Mais estranho ainda: pouco os separa dos seus opositores demónios. E para complicar tudo, concedendo um carácter irreal que só uma grande crença no dispositivo do “suspension of disbelief” poderá suportar: do ponto de vista ético e moral, os dois protagonistas são superiores aos anjos.

Curiosamente o universo de “Supernatural” já chegou ao universo literário, num livro intitulado “The Mythology of Supernatural: The Signs and Symbols Behind the Popular TV Show”, da autoria de Erika Engstrom e Joseph Valenzano. Não sei se com propriedade, qualidade e acutilância crítica discutindo não só a qualidade da série, mas igualmente as suas implicações culturais e metafísicas. No seu resumo é clara a preocupação dos autores: “we contend that story arcs and outcomes of episodes actually forward a hegemonic portrayal of Christianity that portrays a good-versus-evil motif regarding the superiority of Christianity”. Curiosa aqui a assumpção da “superioridade do cristianismo”. Pessoalmente tenho dúvidas. É dar demasiada importância a um produto comercial. Está longe (muito longe…) de conter densidade filosófica harmoniosamente misturada com ficção como o são outras séries na actualidade.

Explorando o impacto da série em alguns fora por essa net, um sublinhado de um fã crítico da série refere a certa altura (aquando da união dos protagonistas a Castel, um anjo) a tradução moderna que temos do entendimento do espaço de Deus na nossa vida: chamamos Deus apenas quando dele precisamos, mas não o queremos a ditar as nossas vidas em mais nada; rejeitam [os protagonistas e a sociedade] o autoritarismo cego dos anjos, mas queixam-se quando forçados a viver num universo deístico (tradução livre minha).

E, curioso, muito curioso, na série Deus não é eterno: nem existe desde sempre, nem viverá para sempre. À luz de muitas correntes, tal é um sacrilégio; noutras épocas de menor tolerância artística/narrativa seria o fim da série e a morte de produtores, argumentistas e actores. E mesmo hoje, percebemos que tal tolerância apenas existe no nosso universo cultural ocidental.

No entanto, há um personagem bíblico que está ausente deste tipo de ficção: Jesus. E já agora, a Virgem Maria, igualmente ausente. E não é só em “Supernatural”. Também em “Constantine” (que convoca Deus e outros símbolos religiosos numa série que do ponto de vista narrativo teria um potencial gigantesco), “Midnight, Texas” (muito fraco, mas que se inclui na tendência de misturar bíblia, mitologia e folclore) ou mesmo “American Gods”.

Acredito que seja por ser extraordinariamente delicado. O cristianismo foi construído sobre a imagem de Cristo, ocupando Deus um espaço algo difuso. Neste sentido, Cristo estará mais (omni)presente na cultura ocidental de matriz europeia que o próprio Deus. Comercialmente seria um suicídio político e popular, face à onda de indignação que varreria certas comunidades religiosas norte-americanas (e não só).

A questão da visão (ou de uma visão) de Deus poderá ser uma outra vertente da discussão da religião num mundo globalizado e que confesso ignorar. Como será que países com religiões diversas veem estas representações/apropriações do universo religioso de uma outra cultura?

Claro que a resposta é sempre a mesma, numa manifestação de democracia mediática: vê quem quer; não vê quem não quer. Essa é a melhor das respostas possíveis e é por isso que a televisão é dos meios mais democráticos existentes. Mas essa é toda uma outra questão!

Um pensamento em “Não usar o Santo Nome de Deus em vão”

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