Crónicas (T3): Ainda sou do tempo… em que a RTP2 passou a “Vamp”

Parece estranho, falar nisto hoje em dia num blogue que se auto-intitula como um espaço “onde a televisão é levada a sério”, mas a verdade é que o formato de telenovela teve um impacto profundo em gerações que não são propriamente “velhas”. Com a facilidade de acesso actual a todo o tipo de conteúdos, três décadas parecem longínquas, mas a verdade é que, nessa altura, estávamos tão limitados nesse sentido que parece que foi há mais tempo.

Claro que não se pode generalizar, dizendo que se viam telenovelas porque não havia mais nada. O acesso à cultura variava, como ainda varia, consoante as circunstâncias, o local onde se cresceu, a viabilidade económica familiar, a própria educação. Por exemplo, na terra onde cresci a única biblioteca que tínhamos era itinerante, que percorria várias aldeias e apenas passava pela vila uma vez por mês. Cinema até tínhamos de vez em quando, mas com projecções numa tela improvisada, feita de dois lençóis cosidos, e sessões com os filmes mais populares de que tinham saído em sala nas grandes cidades três meses antes. Ou tínhamos ainda o videoclube improvisado (para quem tinha o luxo de ter um vídeo) na papelaria local, quase sempre com a mesma dúzia de filmes disponíveis (e quatro ou cinco eram porno, logo não deixavam o pessoal mais novo alugar). Restava-nos pouco: ou brincar na rua ou jogar à bola ou ver televisão.

Claro que na TV não passavam apenas telenovelas, mas estávamos limitados ao que os dois únicos canais exibiam (a SIC apenas surgiu apenas no final de 1992). Muitas foram as séries que marcaram esses tempos, mas as telenovelas eram uma outra forma de escapismo. Especialmente as brasileiras, que eram mais e tinham uma outra qualidade. Uma delas, exibida na RTP2 em 1993, se não me engano (ou me engana a Internet, que a memória já não é muito boa), chamava-se “Vamp”.

Esta novela, que alguns até apelidam de série, foi criada em 1991 e chegou por cá, como já referi, dois anos depois de estrear no Brasil. Ou seja, tem 27 anos de vida. O seu apelo residia no facto de ser mais direccionada a um público juvenil, em que pegava nas tramas típicas, dos romances e afins, e lhe juntava elementos de fantasia (vampiros). Tinha um elenco enorme, e quase na maioria jovem, o que facilmente despertou a atenção de muitos daqueles que atravessavam a sua infância ou adolescência naquela altura, por isso não será exagero dizer que marcou uma geração ou boa parte da mesma.

Hoje, 25 anos depois, aventurei-me a revisitá-la. E mesmo que a paciência para o arrastar da história (típico no formato telenovela), os avanços e recuos (típico no formato telenovela), os exageros (típico no formato telenovela) já não seja a mesma, há todo um histórico, um envolvimento pessoal, um sentimento, que me impele a sentir-me bem ao revê-la. É a força da nostalgia, um certo desejo de regressar a tempos onde a vida era mais simples… atreveria-me mesmo a dizer que é pura felicidade.

 

3 opiniões sobre “Crónicas (T3): Ainda sou do tempo… em que a RTP2 passou a “Vamp””

  1. Muito bom artigo. O que eu me lembro mais é das séries que passavam na TVI antes do Telejornal. Era quase um ritual: chegava das aulas e ia ver a TVI. E ao fim de semana, ia para o meu alpendre ouvir música na minha aparelhagem e fingia que dava concertos.
    Como dizes, a vida era mais simples ou pelo menos, parecia ser.

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    1. Também eu 😀 A que mais saudades me deu foi Sliders (tenho ideia que só transmitiram as primeiras 3 temporadas cá). No meu caso, chegava da escola, ia jogar futebol (na calçada) até começar Baywatch ou Sliders 😀

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  2. Queria deixar uma menção honrosa ás novelas mexicanas/venezuelanas que passavam nos primeiros anos da TVI. Algumas tinham qualidade ,outras eram tao más que se tornavam boas. Saudades. As novelas conseguem ter tanta qualidade como uma serie (pelo menos as mais antigas) mas têm má fama, talvez porque sempre foram associadas a um produto apenas para as mulheres e até para uma classe social baixa. Os homens eram “obrigados” a ver por causa das esposas. Agora «colisença» que vou ver a Tieta,esta sim uma novela porreta.

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