Santificar os Domingos e Festas de Guarda

A pretexto dos dez mandamentos, um agnóstico assumido pega nas regras essenciais da religião que moldaram o mundo ao longo de séculos e aplica-os à ficção televisiva. 

Tempos houve na História da humanidade que o Domingo era verdadeiramente o dia do Senhor. A própria raiz da palavra assim o lembra, Domingo provem de dies Dominicus, ou seja, literalmente “Dia do Senhor”. Nesse sentido este era o dia reservado ao descanso mas, antes ainda o de honrar Deus, sendo igualmente o dia dedicado à missa.

A tradição anglo-saxónica é mais pagã na raiz da sua palavra, remetendo para o culto do sol (daí o Sunday).

Em qualquer dos casos a tradição judaico-cristã na cultura ocidental obrigava a dedicar um dia para a liturgia e o lavar da alma, buscando o arrependimento, a reflexão e a santificação.

Por diversas vias a religião está representada na televisão. Aliás, sempre esteve. Creio que desde o advento da televisão que as igrejas e as religiões se aperceberam do seu potencial como veículo de disseminação da fé, mensagem ou poder. Não admira que, na memória de muitos de nós estejam presentes na memória da infância os Domingos de manhã com o programa religiosa “70×7” e a missa, só começando a programação infantil a seguir a este segmento.

Mesmo hoje, pelo menos dois canais nacionais de sinal aberto transmitem ao Domingo de manhã a missa. É um hábito de um segmento demográfico da população que – pelos vistos – continua a ter espectadores. Mas mais do que nos canais generalistas: no cabo há canais exclusivamente dedicados à mensagem religiosa menos ambiciosos e mais directos nos propósitos que o projecto original da TVI. Quem é que ainda se recorda de que a TVI teve o seu nascimento na Igreja Católica, quiçá a querer mimetizar aquilo que faz com a Rádio Renascença?

Noutros países, a utilização da televisão pela religião é mais acentuada e muito menos discreta do que em Portugal, com outros credos e correntes aos quais estamos menos familiarizados, nomeadamente os de origem evangélica nos EUA e no Brasil, com canais generalistas detidos por religiões e/ou exclusivamente dedicados à mensagem religiosa que procuram passar.

E se isto é assim no mundo e panorama televisivo ocidental, no resto do planeta não diferirá muito, apesar de não acompanhar o espaço que outras religiões ocupam no espectro televisivo. Na verdade o poder e influência da televisão é de tal forma que qualquer um ambiciona torna-la veículo para a (sua) Palavra.

Nos últimos anos a televisão tem-se debruçado de forma mais série e profunda sobre a papel do culto religioso na ficção televisiva, com diversos projectos que ambicionam a seriedade e alguma reflexão, não tanto sobre o papel de Deus, mas mais sobre o da religião e do seu culto sobre o ser humano/crente.

São cada vez mais os casos de séries que se ambientam no universo religioso, seja retratando uma religião real, seja uma ficcionada.

Todos os que acompanham o panorama da ficção americana, sabem que em tudo se procura inspiração para as séries. Muitas vezes a realidade é melhor do que a ficção; quase sempre aquela inspira a ficção.

A série do Hulu, “The Path” tem semelhanças muito grandes com uma religião em voga naquele país, a cientologia. Menos semelhanças com a realidade é uma outra proposta (mais interessante?!), o estimável “Preacher”, generoso nos seus hectolitros de sangue e violência gráfica com um fundo religioso. Não é para levar a sério, mas a temática é por si só blasfema, subvertendo os princípios sobre aquilo que se rege a religião.

“Greenleaf” é outro desses casos recentes, com algumas referências da crítica especializada bastante interessantes, focando-se na luta de poder numa igreja cristã de enorme sucesso gerida por uma família. Para nós, portugueses, pode ser uma linguagem algo desconhecida pois as igrejas evangélicas ainda não têm o impacto mediático nem a implantação social que nos EUA ou no Brasil, pese embora a atenção mediática que tem conhecido nas últimas semanas. O microcosmos retratado nestas séries – que não acompanho de forma regular – não difere muito das relações estabelecidas entre familiares ou colegas de trabalho noutras séries dramáticas, como, por exemplo, num escritório de advogados, embora aqui – logicamente – devidamente adaptado à temática.

Uma das questões que se coloca é a de como manter o equilíbrio entre aquilo que é ficção e o respeito pelas escrituras e as datas santas de cada religião. Mas mais complexo do que esse assunto: numa sociedade “moderna” e democrática como a ocidental, como garantir a representação da diversidade religiosa existente, especialmente quando os fenómenos migratórios têm vindo a alterar o mosaico social e demográficos dessas mesmas sociedades?

Nos EUA tal é visível na ficção, reflectindo a relação complicada que a sociedade tem com a religião e os religiosos com a televisão. O retrato religioso, encarado de forma séria, em ficção está para lá do dispositivo comum de retratar as idiossincrasias dos personagens como “vai à igreja”, “reza”, “lê a Bíblia”. Está na própria temática central da história e como é retratada na série. Então nas sitcoms, os personagens religiosos são quase sempre tratados de forma supérflua e plena de lugares comuns a roçar o anedótico. Mesmo os dias especiais de cada religião são motivo para piadas, seja o Natal ou um bar mitzvah.

A representatividade e pluralidade da religião na televisão tem igualmente vindo a mudar. Não são só as séries que têm uma abordagem da religiosa (distanciada e critica) retratando o aspecto religioso como fórmula narrativa, mas igualmente quando a temática é o centro da narrativa.

Na impossibilidade de vermos séries dos anos 1950 ou 1960 (ou mesmo anteriores), procurem ter em atenção a estrutura narrativa. Aquilo que vemos são histórias onde predominam (monopolizam) os personagens de etnia branca (os restantes são estereótipos e meramente ilustrativos), protagonistas masculinos (as mulheres são estereótipos de donas de casa e personagens secundários) e o ambiente religioso é claramente o judaico-cristão (as restantes são praticamente omissas). Claro que há excepções, mas o ambiente geral no cinema e na televisão não se afastaria muito do descrito.

Em Portugal estamos muito aquém dos passos dados além mar. Desconheço por cá qualquer série que tenha esta temática como central. Mas nas poucas que vou vendo, os personagens religiosos são escritos e construídos sobre clichés maioritariamente desajustados à realidade e demasiado datados, bebendo ainda muito dos tiques retratados no séc. XIX e provenientes do Estado Novo. Falta-nos uma série mais madura, séria e que retrate o Portugal desta década do séc. XXI. E mais, seria curioso ver o tratamento ficcional dado às minorias religiosas portuguesas, sejam as cristãs, evangélicas, mas igualmente as muçulmanas. Nos EUA, essa diversidade já está patenteada. No Reino Unido, a BBC faz um esforço sério para incluir um retrato mais fiel e uma maior diversidade, depois de uma análise interna que concluiu que os diferentes credos estavam “often absent, poorly presented or satirised”, incorporando na sua programação uma abordagem dos dias religiosos e santos de religiões como a Muçulmana, Judia, Hindu ou Sikh.

Por cá o entendimento que se tem é o daquela hora matinal de Domingo onde se reza a missa para os mais velhos ou mais crentes. Imaginação zero, cuidado nulo, respeito discutível. Mas, vá lá, representa-se a religião maioritária da maioria da população portuguesa, mesmo que os praticantes sejam em número reduzido.

E a isto estamos reduzidos ao dia do Senhor. As festas de guarda são católicas. As restantes referências não existem (ou pelo menos desconheço). É mau? Não. É sinal de que crescemos como sociedade, autonomizámo-nos como seres humanos e responsabilizamo-nos pelas nossas escolhas de vida. É o devir do mundo e do ser humano.

Entenda-se que não defendo a tomada de conta de canais televisivos pela religião. Infelizmente os efeitos poderão ser mais negativos do que positivos. Defendo antes programas de temática madura sobre religião como parte integrante da vida de cada qual, assegurando sempre o direito à indiferença e à blasfémia informada. E igualmente uma representação mais real da diversidade religiosa existente.

Sempre, mas sempre, no equilíbrio do respeito pelas liberdades de cada um.

 

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