Crónicas (T3): As lagostas de São Valentim

“She’s your lobster”, já dizia Phoebe Buffay. O amor vende. E como temática encontra-se sempre enraizada num qualquer produto televisivo.

Em “Westworld”, Teddy incumbe-se da missão de salvar Dolores, na incessante promessa de a levar para longe. Uma autocrítica consciente daquilo que o espectador quer ver.

O amor ou a procura deste, é força motriz a inúmeras séries. Se em “True Blood” tolda a vista à enamorada, em séries como “How I Met Your Mother” e “Man Seeking Woman” vê-se como linha condutora e peça que falta. Para “The End of the F***ing World” é mapa de viagem. Produtos das vivências do dia-a-dia, tais como “Girls”, “Shameless” e “Transparent”, têm a dita procura no ADN, presenteando-nos aqui e ali com relações pseudo-amorosas que colocam sempre a mesma questão: então mas é só sexo ou é amor? Independentemente da sua queda gradual na qualidade – ainda a guardo como uma das maiores desilusões da década -, “Masters of Sex” trabalhou de forma louvável essa linha entre o desejo sexual e o sentimento de teor mais vincado. Ainda que inicialmente o sexo como acto a estudar lhe fosse directriz, a série foi sofrendo metamorfose para um prevalecer do amor como temática. Também “Rectify” se mostrou ser interessante abordagem nessa mescla de amor e sexo, deixando o protagonista à deriva defronte a conceitos que lhe foram conspurcados, sem que no entanto fosse base à série.

O pequeno ecrã tem vindo a produzir pequenas histórias de amor que merecem o devido tempo de antena. Não querendo aqui incorrer num emparelhar de nomes em catadupa, com receio de me perder em possíveis spoilers para as respectivas séries, fico-me por Desmond e Penny, elo que quebra as barreiras de tempo e espaço. Aquele telefonema – sim, esse mesmo – ainda hoje assombra.

Em 2017 foram colocadas na mesa propostas interessantes que usam o amor como núcleo e catapulta. “Legion” pega no dito conceito como utopia, incapaz de recorrer ao toque como via ao consumar. Habita na mesma ausência do toque que fora barreira aos amados de “Pushing Daisies”, esse outro delírio visual que tantas saudades provoca. Pondo de lado a barreira mais simbólica, houve ainda espaço para o abafar por via da religião: “The Path” e “The Handmaid’s Tale” fazem do amor conceito limitado, perturbadoramente condenável na caso da última. A consegui-lo, somente como revolta contra o sistema. É nesse campo que “Hang the DJ” trabalha, desde a procura ao compartilhar de ideais. O episódio de “Black Mirror” casa com um outro de “Master of None”. “First Date” é o estudo moderno da procura do amor por via da tecnologia, na ânsia de um qualquer laço mais profundo. Décadas mais tarde, já com a relação comprovada pelo tempo que lhes ditou vivências a dois, há uma pequena pérola intitulada “My Love”. A haver episódio obrigatório neste dia, seria precisamente esse encerrar de temporada de “Room 104”. Vinte minutos que podem ser vistos na ausência da série como um todo.

Não me considerando um romântico, capaz de revirar os olhos a cada menção do dia 14 de Fevereiro, caminho por estas palavras sem saber exactamente ao que me dirijo. Salientar um casal do pequeno ecrã que actualmente me fascine? Talvez a dupla que protagoniza “The Americans”, tendo em conta a complexidade do elo que os une, indo do encenado ao genuíno. E a verdade é que nos últimos anos se têm construído relações amorosas capazes de despertar interesse pelo quão atípicas são. Os casais protagonistas de “Catastrophe” e “You’re the Worst” assaltam-me de imediato à memória.

Talvez a intenção nestas palavras passe somente por um torcer do nariz pelo renegar de tudo o resto em prol do amor. Ainda sobre “You’re the Worst”, a sua mais recente temporada mostrou-se uma interessante experiência nessa busca do “eu” alheio à relação amorosa. Não obstante o seu tremendo potencial falhado, foi uma tomada de vista de certa forma necessária. “Shameless”, por sua vez, ainda entrega ocasionalmente óptimos momentos quando opta por meter o amor e o sexo na beira do prato. No caso de muitas séries há uma tendência para destacar em demasia o foro amoroso em detrimento de tudo o resto, como se a dita procura automaticamente anulasse a ambição profissional. Sim, é bem sabido como “Homeland” começou, numa obsessão por uma cara-metade proibida. Sim, é igualmente sabido que a série não voltará a ser o que era em termos de qualidade. Mas, e ainda que por vezes lhe surja uma relação ou outra no percurso, Carrie move-se na individualidade. É revigorante ver o quanto se pode construir numa personagem quando colocada momentaneamente de lado essa ânsia no emparelhar. Peggy Olson (“Mad Men”) é exemplo maior. Não se tratando nunca de um desvanecer do amor por completo, existe como complemento ao “eu”.

E vocês, que casais apontam neste panorama televisivo? Que séries melhor abordam e (des)constroem o amor como temática?

9 opiniões sobre “Crónicas (T3): As lagostas de São Valentim”

  1. Muito bom. Esse telefonema do Desmond é brutal, despertou-me a vontade de voltar a ver Lost pela primeira vez (desde o series final que nunca mais tive tempo de rever tudo em modo maratona).

    Homeland começou muito bem, mas depressa descarrilou 😦 Vale pelo percurso das primeiras duas temporadas, principalmente da primeira. Esse amor proibido acabou por marcar a série, para o bem e para o mal, já que não conseguiu dar continuidade a uma boa história…

    Pegando em SFU, a relações do Nate com o amor, principalemnte com a Brenda, mas também com a Lisa e até com a Maggie, foram exploradas brilhantemente. Não sei se viste o meu comentário final a SFU (em https://tvdependente.pt/2018/02/12/best-of-5-a-11-de-fevereiro/comment-page-1/#comment-364), mas adorei SFU, por isso preciso de novas propostas 😀

    Gostar

      1. Obrigado 😀 Por acaso The Shield já me tinha chamado à atenção (não me recordo onde). A série é na linha de The Wire?
        The West Wing também me recordo de ser falada, vou investigar.

        Gostar

      2. The Shield é sobre polícias, e embora não seja bem como The Wire, é uma das melhores séries de sempre. Ponto.
        The West Wing também é excelente, e as histórias dão-nos algumas esperança, especialmente tendo em conta a política americana actual…

        Gostar

    1. Homeland é a minha pedra no sapato, mas a verdade é que ocasionalmente ainda entrega momentos excelentes. O problema é sempre o mesmo, ano após ano, o season finale, espalha-se sempre ao comprido, nunca chega a ter tomates para cumprir nada daquilo a que se propõe. E a narrativa anda sempre ao sabor da maré. Já teve o seu auge, como bem apontas, e isso nunca irá mudar. Mas a verdade é que já teve o seu fundo do poço (a terceira temporada) e depois daí foi conseguindo gradualmente reerguer-se, sem que venha a atingir o nível de outrora, isso é certo. Mas enfim, ocasionalmente ainda entrega episódios muito bons.

      Já revi Lost algumas vezes e lá continua confortável no pódio 😉 Apesar das suas fases mais fracas e desnecessárias.

      A relação do Nate e da Brenda foi outra que sempre gostei imenso de acompanhar, havia ali uma certa frescura que quebrar com o romântico.

      Não tinha visto o teu comentário ainda, fico contente que tenhas gostado assim tanto de SFU. É realmente uma das inquestionáveis, ando com imensa vontade de a rever ultimamente. A Frances Conroy (Ruth) tem um dos meus desempenhos preferidos de qualquer série, é incrível até onde a actriz vai. Aquele final é realmente um murro no estomago, hoje em dia numa qualquer outra série (tantas que o tentam igualar) poderia passar como expositivo, mas ali é o encerrar perfeito para aquilo a que a série se propunha desde o início. Não mudava nada. E a ficção tem realmente esse poder tremendo de terapia, ainda para mais uma série como esta. Para mim acho que The Leftovers serviu em várias alturas como terapia. Ambas a deixarem marca indelével.

      Foste para os supra-sumos, difícil de assimilar essas de seguida. Não me posso pronunciar quanto às sugestões da syrin, visto que não vi nenhuma, mas ocorre-me por exemplo “Rectify”, uma das minhas preferidas. 30 episódios, em 4 temporadas, que são do mais contemplativo do que por aí anda. Um homem que sai da prisão depois de 19 anos encarcerado, na altura ainda adolescente, e tem de reaprender tudo em redor. Um ritmo muito característico, fiel a si mesma até ao ultimo episódio, e com diálogos excelentes.

      Gostar

      1. Bem, agora ou pego em Rectify, ou The Shield. The West Wing também me parece ser uma boa opção, mas fica para depois. Provavelmente vou começar com The Shield, depois Rectify e finalmente TWW 😀
        SFU e The Leftovers ficam para a história como duas das melhores, para mim as melhores, séries de sempre a abordar o tema da morte.
        Também continuo a ver Homeland. A terceira temporada foi claramente o ponto mais baixo (muito baixo mesmo). As últimas temporadas têm conseguido elevar o nível da história, mas realmente falham no desfecho da temporada, parece existir medo de arriscar…

        Gostar

  2. Primeiro tenho que terminar a última temporada de Mr. Robot, e ver os últimos 3 episódios de “The Story of God” com o Morgan Freeman (uma bela surpresa) depois é tempo de embarcar numa nova aventura 😀

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

w

Connecting to %s