Channel Zero (T2): Jogo de memória

O texto que se segue NÃO CONTÉM SPOILERS

Uma das melhores séries que ninguém vê. Esta pode ser encarada como uma declaração ousada, mas não o é.

“Channel Zero”, antologia de terror criada à boleia do sucesso de “American Horror Story”, é em muitos aspectos uma antítese da série criada por Ryan Murphy para o FX. Apresenta premissas pouco abordadas, com execução sóbria, narrativa estruturada e os seus personagens existem ao serviço da história, ao contrário das temporadas de “American Horror Story”, praticamente sempre com ponto de partida em conceitos explorados até à exaustão (fantasmas, bruxas, freaks do circo, etc), com execução espalhafatosa, assentes numa narrativa desorganizada e muitas vezes histérica, e com maior interesse em dar ao seu (excelente) elenco momentos para ganharem a almejada nomeação ao Emmy do que propriamente contribuir para a consistência da história.

Criada por Nick Antosca, que conta no currículo com alguns episódios de “Hannibal” ou o filme “The Forest”, cada temporada (curtas, compostas por apenas seis episódios) é a adaptação de uma creepypasta, pequenos contos, lendas, mitos urbanos assentes no paranormal que se propagaram na Internet através de fóruns e redes sociais (daí o nome, creepy+copy/paste). Não sendo estas ideias originais do criador da série, a verdade é que Antosca pega em conceitos com premissa singular, dá-lhes contexto e executa-os com ponderação, não se deixando cair em facilitismos. E isso nota-se em toda a concepção. Não tendo certamente grande orçamento, sente-se um cunho, uma autoria, sobretudo na estética, seja em termos de planos de câmara, fotografia ou adereços. Há ali toda uma criatividade em termos de produção que não advém da profundidade dos bolsos, sendo sim intrínseca às pessoas envolvidas na série.

Com “Candle Cove”, a primeira temporada, que ainda não terminei (uma das características positivas advindas das antologias é poder-se apreciar as temporadas de uma série na ordem que se entender), Antosca parecia estar em fase de testes. O Syfy é um canal destinado a um público específico e muitas das suas séries, bem como telefilmes, têm um cunho próprio, a roçar o chungoso, e nem sempre é fácil combater esse estereótipo (imagem de marca) criado deliberadamente. Com “Channel Zero”, Antosca quis proporcionar uma alternativa credível, não apenas entre a programação do Syfy, mas também entre o que é feito em televisão dentro do género, e o esforço para ser levado a sério sentiu-se como um peso. Há ali uma certa necessidade de afirmação que acaba por lhe retirar vitalidade, tornando-se um pastelão em vez do “dark and edgy” que pretendia ser.

“The No-End House”, título da segunda temporada, é um passo evolutivo. A premissa coloca um grupo de amigos no centro da acção, que decidem visitar uma bizarra casa que aparece subitamente em cidades e períodos diferentes e cuja localização é divulgada boca-a-boca entre os mais jovens. Ali, os seus visitantes deparam-se com um jogo: seis bizarros quartos, que têm de visitar por etapas. A partir daí, soltam-se as rédeas da imaginação e tudo é possível. A história, simples à primeira vista, ganha proporção. É tensa quando faz do horror a sua arma, enigmática sem ceder a excessos e emotiva quando a narrativa assim o requer. Não há grandes nomes no elenco, mas algumas caras reconhecíveis e, acima de tudo, competentes, dando a credibilidade à história que esta merece.

“Channel Zero” é muito provavelmente uma das séries actuais menos conhecidas (por cá, nem sequer passa no Syfy). Uma pérola à espera de ser descoberta. A terceira temporada, “Butcher’s Block”, anda por aí. E trouxe consigo o Rutger Hauer.

 

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