Waco (Minissérie): Quando a ficção dita a realidade

O texto que se segue NÃO CONTÉM SPOILERS

Quando uma obra de ficção se propõe a contar uma história baseada em factos reais, sobretudo quando aborda eventos que nunca poderão ser devidamente esclarecidos em toda a sua complexidade, e onde a percepção pública (que pode ser manipulada) e a realidade parecem reféns de um jogo de braço-de-ferro, há quase sempre envolvida uma interpretação dos factos, uma tomada de posição, que, mesmo feita inconscientemente, retira alguma credibilidade ao que se quer contar. “Waco” sofre dessa condição.

A minissérie do Paramount Network propõe-se a recontar a história do fatído cerco de Waco, levado a cabo pelo FBI, entre 28 de Fevereiro e 29 de Abril de 1993 após uma intervenção da ATF que resultou na morte de vários agentes, aos denominados “Branch Davidians”, uma seita religiosa liderada por um auto-proclamado profeta chamado David Koresh.

Como obra de ficção, “Waco” cumpre. Tem todos os ingredientes necessários a facilmente agarrar o espectador, sendo excelentemente interpretada e bem conduzida. Mas como recontar de evento histórico é demasiado tendenciosa, perdendo alguma objectividade e levantando dúvidas quanto à sua fidedignidade.

Mesmo sendo baseada em dois livros escritos por dois dos principais intervenientes no cerco (o negociador do FBI, Gary Noesner, e um dos Branch Davidians sobreviventes, David Thibodeau), numa tentativa de explorar os diferentes ângulos da história, a verdade é que apressa-se a definir quem foram as vítimas e os vilões quando a realidade ainda hoje é algo turva nesse aspecto e provavelmente nunca será devidamente esclarecida.

Koresh, o líder da seita, auto-proclamado profeta, polígamo (que tinha a lata de proibir os seus seguidores masculinos de terem relações sexuais, enquanto ele o fazia, e com as mulheres dos outros que tomara como suas, porque tinha-lhe sido incumbido por Deus carregar esse fardo em nome de todos), acusado de pedofilia e abusos sexuais (o que sempre desmentiu), é aqui quase retratado como um injustiçado, um Cristo renascido jogado aos leões, alguém que apenas queria viver a sua vida descansado e sem chatear ninguém (o pior seria se algum dia Deus lhe desse ordens doutra natureza…). Os Branch Davidians são retratados como um grupo pacífico, relacionável, por quem é difícil não criar empatia, apesar de se manterem armados até aos dentes. O Governo, cujos tentáculos são representados pelas forças policiais, é o vilão, pois claro, como tem de ser. E único agente que decidiu fazer frente às decisões, supostamente precipitadas e assentes em pressupostos dúbios dos seus pares e superiores, é o herói, pois claro, como se quer.

Poderá a caracterização dos intervenientes feita pela série ser a mais próxima da realidade? Sem dúvida. Mas poderá não ser? Sem dúvida. Há um certo facciosismo quando se pedia isenção, ainda para mais quando é a própria minissérie que se propõe a abordar ambos os lados da história. E isso reflecte-se na análise que aqui lhe é feita, mesmo que em termos de ficção cumpra, e com qualidade, aquilo a que se propõe.

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