Pilot Season: 1986 (RTP1)

Os anos 1980 de regresso à televisão.

Ou pelo menos uma tentativa conduzida por um dos divulgadores das idiossincrasias e objectos culto daqueles anos.

Claramente uma série de memórias e de referências pessoais, mas que tocam muitos de nós pelas referências dos acontecimentos, das situações típicas da adolescência e dos problemas existenciais com os primeiros amores.

É um produto interessante, se visto como uma revisitação da memória, claramente deambulando no mercado da saudade. Sendo alguém que, em 1986, tinha 14 anos, e estava com as hormonas aos saltos e começava a descobrir o universo misterioso das raparigas e o poder da música e dos clãs musicais a que pertencíamos do “este grupo é que explica o sentido da vida” e no qual as amizades são para sempre, apesar de só durarem até ao fim do secundário, gostei deste passeio.

Claro que nem tudo nos satisfaz, e esperava um pouco mais. Como espectadores habituados à ficção afinada anglo-saxónica e sabendo que a oferta de qualidade é tanta, rapidamente separamos o trigo do joio, concentrando-nos nas séries de qualidade que nos interessam.

É justo, dizer que a ficção portuguesa tem evoluído muito. E “1986” demonstra uma extraordinária capacidade de produção, como aliás já outras séries anteriores tinham demonstrado, nomeadamente o “Conta-me como foi”. Em termos de caracterização de época, estes são os anos 1980. Pessoalmente gosto da história e da estrutura narrativa, achando curiosa a opção por um universo adulto politizado, numa história que se concentra em jovens adolescentes e os seus problemas/aventuras escolares.

A luta Freitas do Amaral–Mário Soares fracturou a sociedade politizando todos, independentemente da sua idade. Julgo que até os bebés tinham um autocolante de um dos candidatos no seu biberon. Foi uma luta de extremos (assim como o aparecimento do PRD), que dividiu a sociedade, famílias e turmas. Na sala de aulas discutia-se política entre alunos e professores; ou melhor, permitia-se que os professores manifestassem as suas opiniões em sala de aula com 30 ou mais alunos (e não a dúzia que aparece naquela turma de “1986”, algo que era de todo impensável tanto nos anos 80 como nestes 2018).

Mas a política era conjuntural. Como as paixões da adolescência, vinham e iam. O que realmente interessava era a música e o cinema. Todos nos lembramos do tempo que passávamos nas discotecas/lojas de discos a ver os discos em vinyl e as cassettes que as nossas parcas poupanças permitiam comprar. Ou das salas de cinema a que não conseguíamos ir, porque houve a invenção daqueles templos da perdição que eram os videoclubes, um dos grandes marcos da década e responsável pela formação cultural da nossa geração. Os dois, realidades claramente urbanas, que existiam em praticamente todos os bairros. No resto do país, não era bem assim.

Finalmente o terceiro elemento: o santo Graal da adolescência. A primeira vez.

O primeiro episódio é quase uma overdose saudosista. Há um excesso de referências aos anos 80. Uma vertigem em caracterizar temporalmente de uma vez toda a década, o que introduz demasiado ruído. E surge uma comparação inevitável.

Se pegarmos em algumas séries como “The Goldbergs”, “Fresh off the Boat” ou mesmo “Stranger Things”, a caracterização daquele período é feita lentamente ou na medida certa (seja lá o que isso for) acompanhando a narrativa. Nessas, não se nota a sofreguidão em tudo colocar de uma assentada.

Um exemplo é o quarto do protagonista principal, demasiado decorado com posters e brinquedos que gritam “eh pá, não te enganes, estás mesmo, mesmo nos ano 80”.

Claramente que, pelo menos para mim, o que nos entra pelos olhos dentro é uma série que nos enfia ululantemente os anos 80, e não uma narrativa que se passa nos anos 80. E é pena, denotando falta de maturação no projecto.

A caracterização da escola sofre dos mesmos problemas do costume. Uma vez mais é um tiro ao lado, algo recorrente na ficção portuguesa, embora nas dos EUA que por vezes acompanho também não seja muito melhor. Este é um universo que está longe de ser tratado por quem o compreende. Há problemas óbvios de produção nesta área. Como referido, a turma é demasiado pequena para a época, e a escola demasiado vazia. Nos anos 80, as escolas estavam sobrelotadas, com turmas enormes e espaços livres insuficientes para os alunos. Eram caóticas e as associações de estudantes contribuíam para a sensação de caos. Assim como as aulas que resultam demasiado artificial, embora se compreenda que há a opção em caricaturizar um pouco. E o cliche completamente desnecessário da “Ilha dos Amores”… parece uma equação: série de adolescentes + escola + engraçadinhos = hormonas em ebulição, logo “ilha dos amores”. E pronto, assim, caricaturalmente, se caracteriza a escola (ou a aula).

Essa é outra fragilidade. A opção da caricatura é demasiado errática, não se percebendo bem as opções de quando é caricatura e quando não é, não se sendo coerente nas opções.

Até agora não compreendi a diferença no estilo de representação entre os actores jovens e os actores adultos. É que os jovens estão muito mais naturais na representação do que os adultos. O pai crítico de cinema comunista, o pai dono de um videoclube e a professora inspiradora não são naturais, credíveis. São caricaturas de adultos no estilo, nas preocupações, nas atitudes, nas posturas. Terá sido propositado para sublinhar o universo adolescente? Se sim, é uma opção interessante; se não, são demasiados erros de casting. Prefiro acreditar na primeira opção.

Tudo pesando surge-me uma questão: se esta fosse uma série americana, será que eu a iria continuar a acompanhar? Tenho dúvidas. De qualquer forma, esta irei continuar a acompanhar. Espero surpresas, ambiciono (re)visitar algumas memórias, lugares e sorrir com as figuras triste e alegres que fiz. Não estará aqui a explicação do sentido da vida, nem daquilo que nos tornámos trinta anos depois, mas um simpático produto televisivo que gostaria que fosse mais do que isso.

Dá-se a feliz coincidência de parte do meu universo geográfico ser quase aquele onde se passa a acção: Benfica e o Centro Comercial Turim (e Fonte Nova), curiosamente o mesmo do autor da série, sendo provável que o tenha encontrado numa das lojas de cópias piratas dos jogos do ZX Spectrum, ou nas escadarias do Fonte Nova (que tinha umas belas salas de cinema, assim como o simpático Turim).

Mas esse é um dos problemas da série.

Ao pretender ser uma série de referência para a geração dos 80’s, acaba por ser uma série que em primeiro lugar é de referência para um público que cresceu em Lisboa/Benfica, em segundo lugar nas cidades e muito pouco fora dos meios urbanos. Nada de mal nesta realidade e opção narrativa. Seria complexo algo de diferente e resultaria mais híbrido do que este piloto resulta, mas não será tão identificativa da geração quanto poderia ser (e diz ser). Tenho a sorte de ter crescido entre dois meios, num vai e vem entre uma aldeia de Ovar e de um bairro quase familiar de Lisboa, para perceber que os anos 80 estão longe, muito longe, de ser o que aqui está retratado.

Há a promessa de uma segunda temporada, mais ao estilo do “Verão Azul”. Gostaria de ver algo menos urbano-lisboeta-benfiquista, e algo que referencie o país e a “nossa” geração de forma mais ampla. Não será difícil. Há altura quase todos os que viviam em Lisboa tinham os avós numa qualquer aldeia do Norte ou do Alentejo.

9 opiniões sobre “Pilot Season: 1986 (RTP1)”

  1. Achei… interessante. Mas não genial.
    Embora seja passada um pouco antes do meu tempo, e de o ambiente de Lisboa ser diferente do da minha cidade, é bom rever algumas coisas apresentadas. Mas como referiste, achei que tentaram fazer muito ao mesmo tempo, e que isso acabou por retirar interesse ao episódio. O que me custou mais a ver foram as interpretações pouco naturais e exageradas ao limite de alguns atores, como o caso dos dois pais ou da professora. Acho que nos dias que correm, e com a evolução da televisão portuguesa, esta exagero à frente a câmara já não deveria acontecer. Mas vou dar-lhe mais uma ou duas oportunidades, a ver se melhora.

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    1. Eu continuo a achar muito fraca a prestação da maioria dos actores portugueses. Raramente vejo ficção nacional mas sempre que vejo qualquer coisa fico com essa sensação. Vejo putos nos states, que ninguém conhece, a terem prestações épicas nas estreias na TV/Cinema…aqui, os nossos, são poucos os que conseguem cumprir quanto mais encher o ecrân.

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      1. Creio ser uma questão cultural e de prática. Nos EUA há muitas escolas com Teatro e muitas oportunidades de praticar. Em Portugal os pais põe os filhos no futebol para serem o Cristiano Ronaldo; nos EUA querem que sejam o próximo Chris Pratt ou a próxima Jennifer Lawrence. Além do mais há casos muito interessantes nos que vão tendo oportunidade de treinar/aprender/evoluir nas muitas novelas que por aí há.

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    2. Um elemento interessante que se tivesse sabido antes teria colocado no BMV (ficará para o Best of desta semana!). Os episódios estão todos disponibilizados na RTP Play. E o projecto “1986” não se fica só pela série tendo uma Banda Sonora Original (mesmo) toda catita e very eighties.
      Pelo pouco mais que vi no segundo há melhorias…

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  2. Eu gostei, mais pela nostalgia, mas concordo com todas as críticas. As personagens adultas deixam bastante a desejar… Mesmo assim, vou acompanhar para ver no que dá 😀

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    1. Repito o que deixei acima: os episódios já estão todos disponíveis na RTP Play, em streaming. Embora um sereno acompanhar semanal seja mais dentro do espírito da série.

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