Relações de plástico, pornografia sentimental

Tenho uma antipatia especial e apaixonada pelos reality shows. Esse sentimento assenta numa relação paradoxal. Por um lado, considero-os um produto claramente televisivo, por outro estou convicto de que são socialmente perniciosos.

Há quem considere serem um retrato da realidade. Não creio. Poderão ser retratos de alguns epifenómenos sociais, de franjas diversas, mas minoritárias. A sua soma estará longe de ser um todo do mosaico social. Além do mais, a presença das câmaras altera os filtros com os quais lidamos com os outros e a forma como mostramos aquilo que somos.

Há uns tempos tivemos aquele disparate do “Super Nanny” que felizmente terminou. As notícias que vieram depois do seu fim abrupto do problema, parece evidenciar alguma manipulação e exacerbação de comportamentos face à câmara/atenção extra dada.

Nos EUA, os reality shows são omnipresentes, existindo de tudo e mais alguma coisa. Um dos mais vistos e longevos é “The Bachelor”, um programa que assenta na procura do verdadeiro amor mediante um prémio final sobre a forma de casamento. Um grupo de mulheres e um homem candidatam-se a descobri o “amor eterno” (televisualmente manipulado), no qual o varão vai seleccionando/eliminado as pretendentes femininas, até ficar aquela com quem quererá casar. Isto de uma forma muito esquemática e assumindo algo errado na premissa, pois poucas vezes espreitei o programa, apenas conseguindo uns vislumbres do que se passa num ambiente fechado e formatado mais para a sedução/ilusão de sexo do que para o “amor”. Mas aquilo que vi causou-me uma saudável repulsa: não gosto, é ilusório, manipula emoções, mas são adultos, façam o que entendam. Portanto não vejo.

Só que algo despertou a minha atenção enquanto me actualizava em termos noticiosos. Alguns jornais americanos, através de cronistas, davam conta de um profundo mal-estar que sentiam com uma sequência do final de “The Bachelor” que consideraram inapropriado.

Não tem a ver com sexo, violência física, antes com outro tipo de abuso. Chamar-lhe-ia um abuso televisivo consentido, o que é uma metáfora hipócrita para o que e passa nestes programas.

A situação em concreto passou-se neste programa, mas na realidade poderia ter ocorrido em grande parte dos “reality shows”.

Vamos aos factos.

O protagonista principal (Arie Luyendyk Jr.) havia escolhido como a sua cara metade, uma concorrente (Becca Kufrin). Só que – o coração e a televisão têm destas coisas – em dois meses desde a declaração o dito cavaleiro, resolveu que afinal… havia a outra, preferindo uma colega de programa, uma tal de Lauren.

Até aqui, tudo bem. Ou mais ou menos tudo bem.

Só que a conversa de ruptura entre o casal inicial foi integralmente gravada, editada, mas sem o típico acompanhamento musical destes programas, e transmitida de forma crua, expondo toda a dor e perplexidade do momento. A conversa foi intensa, emocional, constrangedora e, acima de tudo, privada. Ou deveria ter sido, porque foi divulgada em horário nobre.

Mas houve mais. As câmaras acompanharam todo o percurso pós términus da noiva repudiada, no seu regresso a casa. E a intromissão da privacidade conseguiu ser ainda maior e o desconforto no espectador também. A não ser para aqueles sequiosos e ávidos das misérias humanas.

O problema é que fica sempre a questão: é condicionamento de sentimentos encenada ou manipulação se situação? Por outras palavras, será que é a produção que vai conduzindo ao epilogo desejado sempre em linha com os ratings das audiências e a vontade popular, ou será que quem participa nestes programas cumpre um guião?

É que tenho para mim que alguns destes problemas são tão encenados quanto aqueles combates de wrestling que igualmente são populares na televisão americana.

Cedo ou tarde teremos que delinear uma fronteira com estes programas. Não pode valer tudo. Mesmo que se alegue que são adultos e assinam autorizações legais. Nem tudo o que é legal é eticamente válido; nem tudo pode ser permitido em nome das audiências. E mais, liberalização de conteúdos ou linha editorial, não pode ser confundido com liberdade de expressão ou com democracia.

Um pensamento em “Relações de plástico, pornografia sentimental”

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