Counterpart (T1): A dualidade como condição humana

O texto que se segue NÃO CONTÉM SPOILERS

“Don’t you realize the fight you’re in? It’s Darwinian. There’s only room for one of you. If you don’t become him, he will become you.”

“Counterpart” é um choque de dois mundos, em mais que um sentido: o referente à premissa da série, que versa sobre universos paralelos, e o relacionado com os géneros em que esta se insere, uma mescla de thriller de espionagem clássico com ficção científica. Explorando os típicos elementos usados pela sétima arte na ficcionalização da Guerra Fria mas substituindo americanos e russos por intervenientes de dois universos distintos, “Counterpart” transporta-nos para uma realidade em que um acidente, cerca de trinta anos antes, originou uma Terra-2, acontecimento que, naturalmente, é apenas do conhecimento de alguns. Há uma passagem entre mundos, o que implica instâncias e protocolos, e há, acima de tudo, uma relação tensa resultante de um evento epidémico que dizimou boa parte da população da Terra-2.

Mais do que explorar os elementos de ficção científica em que assenta a sua premissa, apesar de não os descurar, é por detrás de uma intensidade derivada do jogo de espiões que se encontra a verdadeira essência da série: trata-se de um estudo à condição humana, focando-se nas segundas oportunidades, nas virtudes mas também nos desenganos inerentes. É assente nesse pressuposto que evolve, colocando as suas personagens em confronto directo com o seu “what if?”. Quem nunca imaginou que vida teria tido se tivesse tomado decisões diferentes daquelas que tomou? Ou que rumo teria levado em diferentes circunstâncias? Medimos constantemente as nossas desilusões em termos de decisões erradas que tomamos e sucumbimos à falácia de que outras opções proporcionariam diferentes resultados. “Counterpart” joga com essa máxima mas propondo às suas personagens uma falsa esperança de oportunidade de reescrever a sua história uma vez que não lhes oferece um autêntico reset (como histórias envolvendo viagens no tempo podem proporcionar, por exemplo), com vidas sobrepostas que carregam consigo uma bagagem impossível de descartar.

Meticulosamente produzida, onde sobressai a atenção ao detalhe, é na forma como gere o seu elenco em que a série mais se eleva. J.K. Simmons em papel duplo confirma tudo o que já se sabia dele, trazendo à vida dois homens idênticos completamente distintos, onde a sua interpretação é mais que suficiente para nos apercebermos da transição entre personagens, quase dispensando qualquer artifício resultante de adereços ou exposição. E mesmo aqueles que não têm, ou ainda não tiveram, oportunidade de uma representação dual (sobretudo, Harry Lloyd, o Viserys de “Game of Thrones”), revelam-se bem mais que um suporte ao showcase de Simmons, mostrando argumentos para nos manter investidos nesta história mesmo quando o protagonista se encontra ausente (apesar disto apenas se sentir verdadeiramente a partir de cerca da segunda metade da temporada e ter convidados de luxo como Stephen Rea ou Jacqueline Bisset também ajuda).

Imperdível e já com regresso garantido para 2019 – foi renovada para uma segunda temporada de dez episódios ainda antes da produção da primeira -, “Counterpart” deixa marca em 2018, sendo até ao momento uma das melhores séries exibidas no primeiro trimestre do ano.

Um pensamento em “Counterpart (T1): A dualidade como condição humana”

  1. Estou a meio da temporada. Uma das partes que mais gosto é a explicação que nos vão dando, a cada episódio, sobre que realidade é esta dos dois mundos, as diferenças entre ambos, etc.
    JK está fortíssimo.

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