Westworld: 2×01 – Journey into Night (HBO)

O texto que se segue CONTÉM SPOILERS

Aberta a época de caça.

Haja coragem para se descartar um Sir do calibre de Anthony Hopkins. Nome maior (e caro?) por entre um elenco de excelência, era com alguma expectativa que aguardava o seu regresso ou a confirmação de se encontrar irremediavelmente morto. Seria um erro introduzir a ideia de um andróide feito à imagem da personagem de Hopkins. No curso da primeira temporada fez-se uso regular do factor reviravolta, conferindo à mesma um ritmo bastante recomendável. No caso de séries que jogam com a ambiguidade na percepção do real – “Mr. Robot” é outro exemplo perigoso desse limiar entre uso e abuso -, há que saber demarcar a altura de se retrair, antes que se incorra no risco de perder de antemão toda e qualquer credibilidade. Por enquanto, “Westworld” sabe ainda coordenar-se sem abusar das suas possibilidades.

Abre a nova temporada com duas linhas temporais, distanciadas entre si por meros onze dias, desta feita sem a construção espácio-temporal que fora quebra-cabeças à temporada anterior. Não se pretende retirar mistério algum da nova estrutura narrativa exibida, sendo-o desde logo honesta na forma como se apresenta ao espectador. Bernard (Jeffrey Wright) serve agora como o elo que interliga passado e presente – ou presente e futuro, dependendo da linha temporal que se opta por considerar como principal -, elevando-o em importância ao protagonismo de Dolores (Evan Rachel Wood). A sua mente quebra, as memórias confluem e demarcam na edição as mudanças temporais. Um esculpir do tempo simples mas bastante eficaz, culminando numa enxurrada de cadáveres que alicerçam o interesse para os onze dias. Entre esses, o corpo de Teddy (James Marsden) – não o reconhecendo de imediato, dei por mim a rever o plano, uma e outra vez, a inclinar a cabeça, a franzir o sobrolho -, numa jogada que trouxe à memória a última cena da quarta temporada de “Lost”, sem que ainda assim atinja esse nível de surpresa. Finjamos ser um choque ver afogado o ser que morre a cada dez minutos. Na verdade, sê-lo-á na medida em que este ainda poderia servir como o único factor terra-a-terra para Dolores. A sua “constante” por entre as mil e uma vidas, assim o apelida. Roubado o amor, carta branca para uma Dolores num abraço ao sadismo. Se é que não se revela ser a própria a matar Teddy.

A metamorfose de Dolores, de donzela em apuros a carniceira, parte de uma fusão entre dois códigos antónimos e evolui para um novo estado. A catapulta para um novo ser, o ganho da própria voz. A cena em que cavalga em campo aberto de espingarda em punho, assemelha-se ao quadro que pintara a queda moral de William (Ed Harris). Tornado “Man in Black”, sofreu metamorfose de uma cor à outra. No caso de Dolores, a qual ostenta o branco em plena matança, cai por terra essa noção de preto-e-branco que limita e rejeita as nuances do carácter. Deixa de ser um arquétipo de personagem, na óptica do velho herói/vilão, e constrói-se como um ser seu.

A nova narrativa, a magnum opus de Ford, dita a fuga do parque, a busca pela “porta”. É agora jogo de consequências reais, de tiros irremediáveis. Atingido o propósito que conduzira William a Westworld, ano após ano. Época de caça aberta, num inverter de papéis que despe estatuto e poder. Um despir que chega a ser mesmo literal, no caso de Lee Sizemore (Simon Quarterman). Sempre presente esse jogo de identidade. Descama-se o “civilizado”. Ascende o animalesco.

Not all of us deserve to make it to the valley beyond.

A linha de diálogo de Dolores ecoa na proposta do rapaz do estábulo. Pode esta ter sido janela aberta à fuga? Um último teste engendrado por Ford com via à condenação dos incapazes em diferenciar um inocente das restantes máquinas de guerra? Em momento algum oferece resistência, servindo como crítica directa aos demais. Andróide deixado ao mero acaso ou veículo-teste. Bem sei, devaneio à la saga “Saw”.

You folks aimin’ to saddle up, ride for the green pastures of the valley beyond? I can help, if you’d like. I’ll take you wherever you want.

“Westworld” catapulta a presente temporada com um cenário pós-apocalíptico muitíssimo bem delineado, doseando o interesse pelas inúmeras personagens dispersas pelo parque. Há um fascínio que tarda em cessar pelo engrandecer do espaço geográfico – a existência de pelo menos mais cinco parques temáticos. No entanto, a conexão emocional sentida foi quase nula. Vê-se sempre conseguida através de Maeve (Thandie Newton), cujo percurso actual se propõe a reaver o mais primordial dos elos – os próprios créditos iniciais sofrem metamorfose para um novo estado, com o foco dado ao animal fora de controlo e ao amor entre mãe e filha, numa temporada que prima pela escolha. Um belíssimo arco narrativo que a diferencia e distancia dos restantes em plena purga. Aparte essa sua demanda, e por muito que o restante elenco seja bastante competente, sente-se uma frieza que não abre alas para uma maior empatia entre espectador e personagem. Talvez pela violência desmedida que pauta o episódio, ainda que necessária para os laivos do pós-apocalíptico. Sim, é certo que agora a balança se equilibrou e a morte chega sem artificialismos, mas acerca-se somente da “carne para canhão” que até então desconhecíamos. Quando até alguém como Lee Sizemore – sem quaisquer capacidades de sobrevivência – é encontrado ileso por entre inúmeros cadáveres, roça-se o ridículo e o conveniente. As personagens são poupadas e encontradas com um facilitismo que faz torcer o nariz e que contraria esse elevar da fasquia para um jogo que deixou de ser jogo. Morte usada em demasia mas sem peso algum. Ali deambulam os restantes, poupados que piscam o olho ao espectador.

Ainda que não exiba a elegância da escrita do episódio-piloto, “Westworld” volta a prometer o mundo na sua estreia. Dolores parte o espelho.

8 opiniões sobre “Westworld: 2×01 – Journey into Night (HBO)”

  1. Uma coisa que não me recordo: Dolores e Maeve chegaram a interagir na temporada passada? Ou seja, a rebelião passou pelas duas ou foi apenas “coincidência” uma beneficiar das acções da outra?

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    1. Cruzaram-se uma só vez no episódio 1×02, quando a Maeve diz à Dolores para sair da frente do saloon e a Dolores responde com “These violent delights have violent ends”. Sim, ambas tiveram um “acordar” independente entre si. É algo que aguardo com enorme expectativa, essa interacção entre as duas personagens.

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  2. Finalmente peguei na segunda temporada de Westworld (Já só falta começar The Handmaid’s Tale). Quando estamos com dificuldades em terminar determinadas séries por falta de tempo (Vikings, The Punisher, The Terror), não há nada pior do que o regresso, em simultâneo, de duas das melhores séries dos últimos tempos. Assim torna-se difícil acompanhar tudo 😀
    Dolores e Maeve a dominarem, mais uma vez, o episódio (que saudades tinha destas duas personagens). Asnsioso para que se cruzem no decorrer da temporada.
    Bernard parece-me que terá um papel ainda mais importante na história (aquelas cenas em que o Bernard e o “robot” se cruzam são deliciosas, sempre com a Hale por perto).

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    1. Cá te esperava, bem-vindo 😀

      Quando se escrevem críticas a ambas as séries, não há nada pior que o seu regresso em simultâneo! lol

      Tenho que retomar “The Terror”, vi os 4 primeiros e estava a gostar bastante.

      Sim, parece-me que a temporada é na grande maioria de Bernard, com a estrutura muito assente na própria personagem.

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