The Handmaid’s Tale: 2×05 – Seeds (Hulu)

O texto que se segue CONTÉM SPOILERS

Reina o silêncio.

“The Handmaid’s Tale” faz um uso peculiar da narração, sendo através desta que consegue dar voz a uma heroína de pensamentos e ideais abafados pelo totalitarismo. Desde a sua génese que tamanho artifício é presença assídua como mapa do interior de June (Elisabeth Moss). Desejos, planos ou um simples “vai para o c***lho”. A sua mente como o único ponto de escape sob o qual ainda retém algum controlo. Ao 15.º episódio, priva-se o espectador da voz de June.

“Seeds” inicia-se em total silêncio, espelho ao conformismo de uma personagem que volta a adoptar a pele de Offred. Até mesmo a ausência total de flashbacks contribui para essa sua nova postura. Manipulada em corpo e alma, sem nada que a individualize. Ainda que pessoalmente não aprecie o uso de voz-off, a verdade é que num produto como “The Handmaid’s Tale” encontra propósito maior, indissociável de uma personagem que vive a liberdade relativa somente no interior da mente. Na ausência da voz, resta um vazio que continua a trabalhar na caracterização da personagem, não fosse esta série capaz de dizer tanto com o silêncio. Chega a ser dolorosa de testemunhar esta recém-adquirida dormência como via da autopunição. É igualmente em silêncio que esconde a possibilidade de um aborto espontâneo. Se no curso da série o quê de aterrador passava pela possibilidade de June engravidar, sofre agora metamorfose para a hipótese da gravidez se ver interrompida, pela simples ponderação daquilo que lhe pode vir a acontecer. Desolador o quadro de June na banheira de sangue, auxiliado pela ausência de pensamentos audíveis. Ou o seu olhar alienado diante do casamento de Nick (Max Minghella). Sementes que a conduzem à tentativa de suicídio. É somente no emotivo monólogo final que June volta a ilustrar a sua resiliência em lutar contra o regime.

I will not let you grow up in this place. I won’t do it. Do you hear me? They do not own you. And they do not own what you will become. Do you hear me? I’m gonna get you out of here. I promise you. I promise.

Ainda que muito distante do foro dramático que caracteriza o percurso de June, o tempo de antena dedicado às Colónias acaba por não se sentir tão disruptivo como o haviam sido os flashbacks no episódio anterior.

Emily: God’s watching over us? Shit job he’s doing.

A chegada de Janine (Madeline Brewer) traz consigo um contrabalanço saudável a Emily (Alexis Bledel), esta última já postal ao pessimismo da distopia. A recém-chegada exibe uma postura de inocência, crente num ser divino demasiado ocupado para as socorrer. Ainda que haja lugar para um interessante embate de posturas, a longo prazo será necessário um outro acrescento narrativo – possivelmente um qualquer vislumbre de fuga -, que sustente estas visitas ocasionais às Colónias.

2 opiniões sobre “The Handmaid’s Tale: 2×05 – Seeds (Hulu)”

    1. Acho que vou relembrar sempre este episódio como o episódio do silêncio. Aterrador como se entre nele com a mente de June em “branco”.
      Sim, a série expande de forma muito interessante este mundo cuidadosamente criado e tão característico.

      Gostar

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