Westworld: 2×05 – Akane no Mai (HBO)

O texto que se segue CONTÉM SPOILERS

Gueixas, katanas e códigos de honra. Bem-vindos a Shogun World.

Dá-se em todo o seu esplendor a tão aguardada visita ao parque da Delos inspirado no período Edo (1603-1868) da história do Japão. E não poderia ter sido encabeçada por melhor personagem. “Akane no Mai” – japonês para “a dança de Akane” – relembra Maeve (Thandie Newton) como o mais cativante ser a acompanhar na experiência “Westworld”. Há um balancear saudável entre a nostalgia do papel que ocupou como mãe e a imprevisibilidade que a dita como capaz de tudo para o reaver. Talvez por se ver bandeira a esse elo de ligação primário, acabe por transparecer como a personagem mais humana, capaz de despertar a conexão emocional do espectador, adormecida para tantas outras personagens. O arco narrativo de Maeve é o mais simples e directo no seu pressuposto, e talvez por isso mesmo o menos questionável em motivo. A cena final ilustra esse seu coexistir de posturas, com ambas as personagens a tomar direcções opostas. Maeve aguarda de espada em punho o bando de guerreiros. Akane (Rinko Kikuchi), a doppelgänger, acerca-se do cadáver da filha (?). Duas mulheres que são uma só na ilustração de mãe – o próprio genérico o enfatiza.

Maeve: You can’t keep doing this to us, giving us people to love and then getting upset when we do.

Lee: But it’s just fucking code.

Maeve: You’re wrong. I’m coded to care about nobody but myself, and yet here I am, willing to risk my life for someone else.

Ainda antes das personagens apontarem as incontáveis semelhanças entre mundos, já se desenha um sorriso no rosto assim que a soberba cover instrumental de “Paint It, Black” se faz ouvir. Faixa sonora que remete de imediato a uma associação entre pontos geográficos e personagens que se limitam a uma mudança de traje. Sabe-se de imediato aquilo a que se vai. Uma irrepreensível banda-sonora que demarca espaços e personagens, tornando-as gradualmente indissociáveis das faixas sonoras que as apresentam e acompanham.

Houve de tudo um pouco na primeira incursão a Shogun World, indo desde um ataque de ninjas a uma belíssima dança que culmina num espectáculo de gore que tão bem caracteriza a cultura japonesa. Maeve adquire uma nova habilidade que a delineia como máquina de guerra perfeita. Uma “nova voz” despertada na interacção com a sua doppelgänger?

A construção do cenário bem como uma apresentação que ressalva paralelismos entre parques/mundos. A interacção entre personagens. As peripécias que não avançam o arco narrativo de Maeve, mas que ainda assim a engrandecem nas habilidades. Tudo funcionou às mil maravilhas. Bem, quase tudo. “Westworld” já exibe um comic-relief a rebentar pelas costuras, por muito desadequado que por vezes possa ser. Recorrer a este jogo de diálogos usados, reciclados, abusados, antiquados, só ilustra a sua ocasional habilidade em resvalar num amadorismo de escrita que a faz cair degraus abaixo. Em pleno 2018, e num produto deste calibre, há que saber o que riscar:

Sylvester: Can’t you…say something to them?

Felix: I’m from Hong Kong, asshole.

Se é certo que Shogun World merecia um episódio que lhe fosse inteiramente dedicado, a verdade é que este partilhar de atenção com as “cavalgadas” de Dolores (Evan Rachel Wood) acaba por funcionar da melhor maneira. Também em Westworld se aborda o quê de genuíno num elo de ligação inicialmente fruto de código. Pela primeira vez na temporada, sem a matança desenfreada, sente-se o devido tempo para que a personagem respire e reavalie as peças em jogo. Dolores volta a suscitar algum do interesse que lhe fora constante na primeira temporada. Notam-se agora conflitos internos que vão além do robótico e unidimensional. Extingue o velho Teddy (James Marsden) que outrora lhe prometera o horizonte (o “someday” que o caracteriza), fazendo nascer no seu lugar peão implacável na guerra por vir. Uma louvável reviravolta que dita o fim de Teddy como bem o conhecemos, pelas mãos da mais improvável adversária.

To grow…we all need to suffer.

A passagem por Sweetwater dá-se cheia de pormenores deliciosos – o rolo de pianola manchado por sangue; os andróides ainda perdidos no seu loop no interior do saloon – e alimenta a memória para a associação ao cenário de Shogun World. À semelhança do episódio anterior, “Akane no Mai” volta a beneficiar de uma progressão narrativa bem menos dispersa em motivos, tempo e espaço.

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