The Handmaid’s Tale: 2×08 – Women’s Work (Hulu)

O texto que se segue CONTÉM SPOILERS

O elo que vai além do ventre.

No palco desolador de “The Handmaid’s Tale”, quão rara a existência de uma cena tão optimista como aquela que encerra o oitavo episódio? Belíssima, do melhor com que a série já presenteou o espectador, capaz de fazer esboçar o tal sorriso no rosto tão ausente no curso da distopia. A reviravolta pelo simples facto de não incorrer na ruína característica da série. Aqui o toque, já por si tão relevante na história a contar, assume uma importância extra, estabelecendo um contraste entre os dois tipos de mãe que ali se cruzam. De um lado, a total ausência do toque, própria de uma mãe incapaz de estabelecer qualquer elo de ligação com a filha. Mãe somente em estatuto, porque o regime assim lho aponta como a ordem de todas as coisas. Do outro lado, uma outra que não desiste da filha mesmo quando lhe é prenunciado o óbito. Um belíssimo momento de pele-a-pele que tanto diz sobre o rumo das crianças que irão crescer no seio do regime, muitas destas entregues a mães que nunca desejaram sê-lo.

Por vezes, dado o alto calibre do elenco feminino que preenche “The Handmaid’s Tale”, pode cair-se no erro de remeter Madeline Brewer para a sombra. Se já se haviam vislumbrado inúmeros laivos daquilo que a actriz é capaz, é talvez com “Women’s Work” que tudo se torna mais evidente e difícil de ignorar. O entusiasmo de Janine, a sua capacidade em ver luz num túnel escuro como breu – “No blowjobs” -, apenas deixam transparecer uma inocência desmesurada face a tudo aquilo que tem vindo a sofrer na pele. Frágil e optimista, mescla de traços de carácter que tanto a demarcam das restantes handmaids.

June: Blessed be the fruit.

Janine: May the force be with you.

O interior da casa dos Waterford é cada vez mais um dos cenários de horror melhor construídos em televisão. As divisões falam por si só, auxiliando-se de um uso reduzido de iluminação. Os espaços que as interligam comunicam uma sensação de calvário a ultrapassar, com o compasso arrastado de June (Elisabeth Moss). O silêncio pesado, a ausência de cor – curiosa a sugestão de Eden (Sydney Sweeney) para um papel de parede amarelo -, tudo contribui para uma aura de opressão que reveste cada canto e estratifica níveis de poder. A casa-prisão é personagem.

É no seu interior que se vivem actualmente estranhas e complexas interacções por entre o trio de personagens. A tentativa em reaver o respeito e estatuto de outrora: Fred (Joseph Fiennes) encaminha Serena para a porta, reduzindo-a de novo à sua insignificância; Serena (Yvonne Strahovski) sufoca o choro e ordena que June vá para o quarto. Entre o casal, June, que clama pelo perdão do mestre como jogada de sobrevivência.

A violência infligida a Serena promete vir a agitar os alicerces dos Waterford. Não obstante tudo aquilo que já sofreu nas mãos desta, June vê pela primeira vez naquelas chibatadas o fardo que compartilha com Serena, o ser-se mulher, veículo à soberania do homem. Estabelece-se um distorcido elo de ligação que June ainda pode vir a usar a seu favor.

Jogadas de poder. Cedências. Infracções. A segunda temporada de “The Handmaid’s Tale” prima pela (des)construção de relações que chegaram a habitar a simplicidade do preto-e-branco.

 

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