Westworld: 2×08 – Kiksuya (HBO)

O texto que se segue CONTÉM SPOILERS

Procura-se a porta no melhor episódio da temporada.

A porta, esse limiar a transpor como fuga ao “mundo errado”, levantado tematicamente no curso da temporada, nasce na fala de um improvável Logan (Ben Barnes). Proferido em delírio, vê-se semente da dúvida em Akecheta (Zahn McClarnon). Fascinante este engrandecer na importância de personagens que parecem inicialmente desprovidas de propósito maior. A jornada de autoconhecimento de William (Jimmi Simpson) conduz à perdição de Logan, que por sua vez desperta algo em Akecheta, que por último planta o propósito para o futuro William que adorna o negro. Entrecruzam-se percursos, dúvidas, ideias obsessivas – a resiliência de uma ideia que é tema caro à segunda temporada de “Legion”. A lenda, o passa-palavra que gradualmente molda e faz acordar. O labirinto metafórico pensado por Arnold (Jeffrey Wright) com Dolores (Evan Rachel Wood) em vista, acaba por despoletar algo em Akecheta. Cravado seja na pedra, areia ou escalpe, essa obsessão não parece provocar dissonância alguma nas personagens, mostrando-se distante do efeito provocado no pai de Dolores aquando da descoberta da fotografia no episódio-piloto. Limitam-se a passar a mensagem, sem que a incógnita lhes cause fracturas significativas na rotina.

A segunda temporada continua a desenvolver a mitologia de “Westworld”, por vezes em demasia para um tão curto intervalo de tempo. Desvendam-se novos parques, acrescentam-se personagens e motivos, desconstroem-se as intenções da Delos. Paira a dúvida se tudo isto terá sido pensado desde o início ou adaptado conforme a renovação a novas temporadas. Com a despedida de Game of Thrones em 2019, a HBO precisa de um outro sucesso que se aguente por semelhante longevidade e “Westworld” parece ser a única aposta já bem estabelecida. Independentemente de ter sido ou não pensado desde a origem, o arco narrativo de Akecheta encaixa no todo de forma orgânica. Se é verdade que poderia ter caído no erro de não ser mais que um mero filler, acaba por mostrar-se essencial para um interligar das peças.

Ford: I built you to be curious, to…look at this empty world…and read meaning into it. All this time, you’ve been a flower growing in the darkness.

Ao contrário do que tem vindo a ser mostrado, Dolores não foi a primeira a despertar para a dicotomia dos mundos. Recua-se no tempo para acrescentar uma outra camada a “Westworld” e elevar Akecheta na importância. Remetido à sombra, atento ao sinal da Deathbringer. Ainda que compartilhem o desejo de sair do “mundo errado”, distanciam-se na abordagem tomada. Está por vir um confronto entre Maeve/Ghost Nation e Dolores?

“Kiksuya” (Remember) é na sua essência uma história de amor. O mais belo momento deste interlúdio dedicado a uma só personagem, é não outro que o reencontro entre Akecheta e uma cara-metade já desactivada, ao som de um arranjo da “Heart-Shaped Box” dos Nirvana. A desorientação inicial, a aceitação da perda, a iniciativa de regressar por si mesmo à maca para o update. Na verdade, uma das mais belas cenas da série no seu todo.

De louvar Zahn McClarnon – actor-revelação da segunda temporada de “Fargo” – e o quanto consegue transmitir por debaixo de uma pintura facial tão carregada. Belíssima por sinal, com o vermelho a contrastar com o deserto em redor. É na contemplação desse cenário que também se conta muito da personagem. Encontra-se ali um certo paralelo entre os recém-introduzidos amantes e as promessas que outrora se trocaram entre Dolores e Teddy (James Marsden). O horizonte como promessa de um novo mundo.

“Westworld” só tem a ganhar quando opta por episódios menos dispersos em tempo e espaço. A estrutura narrativa funciona da melhor forma, estabelecendo uma ponte entre Ake e Maeve (Thandie Newton). Ainda que “Kiksuya” não conserte as inúmeras fragilidades de uma temporada inferior à predecessora, como hora televisiva isolada tem tudo para ser destacada como uma das melhores da série.

 

Um pensamento em “Westworld: 2×08 – Kiksuya (HBO)”

  1. Episódio excelente, dos mais belos da série. Não consigo acrescentar mais nada à tua crítica perfeita 😀
    Destaco também a brutal cena ao som da Heart-Shaped Box…

    Gostar

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