Doctor Foster | Marcella: Duas mulheres neuróticas

O texto que se segue CONTÉM SPOILERS

Para ressacar de uma primavera e início de verão chuvosos, nada melhor do que fazer um zapping entre as propostas da Netflix e ver o que sai na rifa. E o que saiu foram duas séries vindas deste lado do oceano: “Doctor Foster” (BBC) e “Marcella” (ITV).  A escolha parecia interessante, visto que do lado de cá se apreciam muito as séries britânicas dramáticas e, dentro deste género, as policiais. Juntando a isto o facto de termos como protagonistas duas mulheres fortes, era quase certo que a escolha era a mais acertada. Infelizmente não foi isso que aconteceu.

Muito pelo contrário. Se à primeira se desculpa (pode ter sido um azar), à segunda não há como deixar a irritação de lado. Suranne Jones e Anna Friel mereciam melhor. E por isso, perdoem-me esta crítica dupla em jeito de desabafo.

Supostamente baseada no mito de Medeia, “Doctor Foster” (2015-2017) conta a história de Gemma Foster (Suranne Jones), uma médica de meia idade, bem sucedida, com uma carreira que vai de vento em popa e com uma família de sonho, que começa a suspeitar que o marido a está a trair. Das dúvidas iniciais à procura por respostas, a cada episódio que passa vemos Gemma Foster a tornar-se mais fria e calculista, numa tentativa de se vingar de tudo e de todos os que a traíram. Com uma primeira temporada com grandes momentos, como o da confirmação da traição e o da revelação final, é no entanto com alguma frustração que vemos como esta personagem acaba por ser tão neurótica, tão fraca, ao ponto de se deixar influenciar por situações secundárias e de ser incapaz de se distanciar definitivamente daqueles que lhe querem mal. E isso, infelizmente, apenas se intensifica numa segunda temporada sofrível, onde os momentos frustrantes se sucedem a cada minuto. Com apenas dez episódios no total, cinco por cada temporada, poderíamos achar que não haveria muita margem para a série descambar. Mas infelizmente foi isso mesmo que aconteceu, despedindo-se com um final que nos deixa frustrados por não termos resistido à tentação de ver o que poderia inventar a seguir.

Porque um mal nunca vem só, “Marcella” (2016-2018), situa-se num género televisivo totalmente diferente, mas infelizmente sofre de muitos dos mesmos problemas. Alguns, até, exacerbados ao limite. Marcella Backland (Anna Friel), uma ex-detective da polícia inglesa que deixou a polícia para ficar em casa a tomar conta dos filhos devido a um evento traumático, é chamada de volta ao ativo porque… bom, nunca se percebe muito bem porquê. Mas é chamada de novo ao ativo para ajudar a encontrar um assassino em série terrível, que tem/pode ter ligações ao seu passado. Uma coisa que começa torta dificilmente se volta a endireitar, mas a verdade é que era difícil imaginar que fosse resultar… nisto. Em “Marcella”, nada faz sentido. As tramas e subtramas e mini-tramas sucedem-se, as personagens entram em cena vindas sabe-se lá de onde, os mistérios intensificam-se e nunca chegam a ser resolvidos e o telespectador, que achava que sabia para o que tinha vindo, fica embasbacado a olhar para a TV, no final de cada episódio, e a pensar se não padece do mesmo síndrome de Marcella e perdeu algum episódio ali pelo meio que explique o que está a acontecer. Enquanto “Doctor Foster” se perdia nas indecisões da personagem principal, “Marcella” perde-se completamente em tudo – na história, nas personagens, nos dramas amorosos, no tempo, até no senso comum. Tudo é tão absurdo, que acaba por ser impossível não devorar, num ápice, as duas temporadas de oito episódios, enquanto se abana a cabeça e se pergunta “Porquê, deuses, porquê?!”. Escrito pelo sueco Hans Rosenfeldt, criador de “The Bridge”, “Marcella” foi uma tentativa furada de trazer o drama escandinavo para a TV britânica. Mais valia terem ficado quietinhos a ler as legendas das séries nórdicas…

Duas séries, duas experiências, dois tiros ao lado. Venham daí as férias para ver se conseguimos limpar este gosto amargo que ficou na boca, e se encontramos algo melhor para ajudar a passar o tempo. Sugestões?

3 opiniões sobre “Doctor Foster | Marcella: Duas mulheres neuróticas”

  1. Séries inglesas? Happy Valley, The Five (Harlan Coben), Thirteen, The Secret.
    Isto apenas se ainda não viste as mais conhecidas The Missing, Broadchurch, Luther e Peaky Blinders 🙂

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    1. Happy Valley estou a terminar de ver. Muito boa.
      The Five, Thirteen e The Secret não conheço (embora Thirteen já estivesse na minha mira)
      Das outras, já vi todas excepto Peaky Blinders.

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      1. Pronto, então é ver Peaky Blinders 🙂 para mim é quiçá a melhor coisa q vi depois de Breaking Bad. Não sei porquê mas pouca gente vê/conhece…

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