The Handmaid’s Tale: 2×10 – The Last Ceremony (Hulu)

O texto que se segue CONTÉM SPOILERS

Regra número 1 para experienciar “The Handmaid’s Tale” sem perder a sanidade por inteiro? Ter sempre bem presente que tudo pode piorar ainda mais. F***-se…

O sorriso de desafio de June que abre a crítica, sofre gradual metamorfose até desvanecer. Ao longo da temporada tem servido como marcador de optimismo, qual trunfo na manga que é ainda possível ter nos meandros das “circunstâncias reduzidas”. “The Last Ceremony” destrói por completo quaisquer vestígios de um sorriso. Arranca da heroína as idealizações de poder, de possibilidade de fuga.

A postura de desafio – de alguém ciente do poder que lhe reside no ventre -, dá lugar à súplica, ao horror, à dor de uma despedida. Não sendo de ânimo leve que se lança tamanho veredicto na série que lhe é casa, “The Last Ceremony” é muito provavelmente a sua hora mais dolorosa. Quando o espectador julga que já toda a violência física e psicológica foram empregues, facilmente lhe é comprovado o contrário e vai-se ainda mais longe no sadismo narrativo.

You treat it like a job. One detaches oneself. No more to you than a bee is to a flower. Not me. Not my flesh. I’m not here.

A Cerimónia em si pode já não acrescentar nada de novo à história – há muito que anda na ordem corriqueira dos dias -, mas até então nunca se mostrara no seu expoente máximo de violência. “The Handmaid’s  Tale” iniciou o seu percurso in media res, palco para uma protagonista que aprendeu a “aceitar” passivamente o acto em si, desligada em espírito. Ainda não havia sido testemunhada esta resistência, esta súplica de mulher para mulher. Cerimónia que se demarca significativamente de todas as outras não só pela resistência oferecida, mas acima de tudo por se tratar de uma violação na recta final da gravidez. De uma crueldade inigualável raramente vista em televisão. A longevidade do acto a acompanhar, a invasão da câmara no rosto de June, tudo contribui para a imersão na cena. No fim, já com os violadores fora de campo, o aterrador silêncio que tanto conta numa série como “The Handmaid’s Tale”. June a recompor-se muito lentamente e em silêncio.

Certamente que depois do uso e abuso da protagonista como corpo e veículo, nada mais havia a suportar, certo? Muito pelo contrário, a cena mais dolorosa estava ainda por vir.

I need you to do something for me, okay? Enjoy your life.

Ao vigésimo episódio dá-se o reencontro entre mãe e filha. Momento doloroso por se saber de antemão como efémero. A filha que inicialmente a estranha, evita e aponta o dedo (Why didn’t you try harder?), deixa gradualmente entrever as saudades que sente. Em pouquíssimos minutos escolhe-se o essencial para dizer. Em plena consciência de poder não a voltar a ver, June diz à filha para aproveitar a vida. Palavras duras que optam por fechar os olhos a idealismos e falsas promessas. Elisabeth Moss entrega-se por inteiro a uma personagem que requere níveis de dor inconcebíveis. Semana após semana, as nuances no rosto da actriz nunca cessam no fascínio que arrancam do espectador. Apesar da série violentar a sua protagonista vezes sem conta, há sempre algo de novo a descobrir naquele rosto. Conforme se foi avançando na série, com um abuso físico e psicológico progressivamente maiores, June foi exibindo uns certos “tiques” na postura. As mazelas psicológicas estão lá, num canto escuro por confrontar, e por vezes esses seus maneirismos denunciam-no da forma mais subtil. Quando Fred (Joseph Fiennes) expulsa June do escritório, esta inicialmente propõe-se a corresponder à ordem. Para além de um olhar capaz de exibir a totalidade do espectro de emoções, os próprios movimentos de cabeça deixam transparecer uma incapacidade de fazer coexistir todas as suas vontades com as proibições que as deitam por terra. O corpo de Moss conta tudo aquilo que é humanamente possível, contido por um colete de forças que não existe efectivamente como objecto de encontro ao corpo, mas sim como um regime que abafa cada pensamento, passo e escolha.

Sem a filha. Sem Nick. Sozinha na recta final da gravidez. “The Handmaid’s Tale” parte para os seus três últimos episódios com o pessimismo que lhe é constante. Há ainda algum limite a transpor?

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