The Handmaid’s Tale: 2×12 – Postpartum (Hulu)

O texto que se segue CONTÉM SPOILERS

Corpo usado e abusado, até à última gota.

O penúltimo episódio inicia o seu tempo de antena com um contraste: num quarto com imensa luz solar, Serena (Yvonne Strahovski) alimenta a filha através de um biberão; numa divisão impessoal e com tonalidades bem mais escuras, June (Elisabeth Moss) extrai o leite materno através de uma bomba. Para além da ordem de aparição no ecrã conseguir reduzir June na importância – mera vaca a ser ordenhada -, a própria palete de cores estabelece um contraste na condição das duas mulheres. “The Handmaid’s Tale” faz uso de todas as suas ferramentas para contar uma história maioritariamente visual. A própria banda-sonora que se inicia idílica em torno do recém-nascido, sofre uma metamorfose muito subtil quando a câmara revela pela primeira vez o rosto de Serena, como que apontando o dedo a algo de errado no cenário de maternidade que ali se constrói.

Ao contrário do que seria de esperar, o cenário pós-parto recupera um pouco da “normalidade” da escala Waterford. June regressa a casa, pela segunda vez na temporada, numa postura meramente acessória ao seio familiar. Um instante como espelho perfeito da privação: ao ouvir o choro da filha no piso de baixo, June deita-se no chão e acaricia o soalho. A ligação possível na ausência do toque. Um instante como resposta directa à incompletude: Serena tenta dar de mamar à filha, essa pequena grande falha que a reduz na sua própria óptica do que é ser mãe. Incapaz de viver a maternidade em toda a sua plenitude. Na casa dos Waterford é levado a cabo um constante jogo de cedências. A cena final chega como um raro vislumbre de esperança, ilustrando a aceitação de Serena como sendo insuficiente para a própria filha. A segunda temporada tem feito uso – por vezes em demasia – de uma aliança entre heroína e vilã, e “Postpartum” é mais uma alínea a destacar nessa que é a interacção mais conturbada da série. Lado a lado em prol de um bem maior.

I think…in this place…you grab love wherever you can find it.

Mais uma vez, ainda que de forma indirecta, as palavras de June conduzem ao escape de outrem e consequente fechar de cortina. A morte de Eden (Sydney Sweeney) é mais um dos murros no estômago com que “The Handmaid’s Tale” tem vindo a habituar o espectador. De um sadismo inconcebível e nunca aligeirado pela beleza tremenda das imagens. O percurso de Eden pode ter sido curto e discreto mas tal não impede que deixe marca nas restantes personagens em redor. É certo que a morte como punição é já um dado adquirido na estadia em Gilead, mas algo desperta ao ver-se testemunhada em comunidade e com o devido arrasto no tempo. Deixa marca indelével (?) em Serena, conduzindo ao ponto de viragem na cena final.

Em paralelo, Emily (Alexis Bledel) e um novo recomeço. Nas mãos de um Commander ambíguo, bem ciente das punições que a lei dita, ainda que sem as levar avante. Há uma tensão constante em cada movimento e linha de diálogo, caracterizando-o com uma aura de imprevisibilidade que complica a leitura.

“The Handmaid’s Tale” semeia um pouco de esperança para o último episódio da temporada. Mero ponto e vírgula a um pessimismo que teima em vir à tona, semana após semana?

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