Westworld: 2×10 – The Passenger (HBO)

O texto que se segue CONTÉM SPOILERS

Já passou algum tempo e a HBO teima em não exibir o final oficial da segunda temporada de “Westworld”. Por enquanto, fiquemos com este.

Porta aberta para o episódio mais preenchido até à data, mera enxurrada de revelações e reviravoltas que desconhecem a altura certa para se chegarem à frente. Actualmente, a força motriz de “Westworld” é não outra que complicar-se a si mesma. A narrativa assim o pede? Ou trata-se apenas da maneira mais exibicionista de camuflar todas as suas fragilidades na escrita? Independentemente do curso dos acontecimentos poderem ou não satisfazer, há algo de prejudicial na forma como a série conta a sua história. Se na primeira temporada a (des)construção de linhas temporais funcionara como caracterização lógica de Dolores (Evan Rachel Wood), na temporada que chega agora ao fim a mesma abordagem – desta feita, honesta desde o primeiro episódio – mostrou-se obstáculo à fluidez narrativa. Constantes avanços e recuos que suspendem a acção, retiram-lhe peso e qualquer possibilidade de envolvência emocional. Chega mesmo a ser frustrante a ininterrupta postura cerebral em detrimento de emoções.

No campo da filosofia, “Westworld” exibe verborreia mas nada diz. Lançam-se ao ar palavras e expressões como “escolha”, “mudança”, “o mundo real”, “o mundo errado”, “o outro mundo”, “o novo mundo”, etc. Na verdade, há um coma alcoólico a atingir por cada vez que se vêem proferidas no decorrer de uma só hora televisiva. Ditas com um à-vontade de lista de compras, em diálogos monocórdicos que há muito deixaram de se ver justificados por se tratarem de andróides. Um estilo de fala que a todos se estende e que tenta embutir na série uma profundidade que simplesmente não existe. Conflui com um outro problema, que passa pelo valor atribuído à vida. “Westworld” faz questão de o salientar, mas a verdade é que nem por um só segundo se sente o valor da vida como algo efémero. Há sempre um segundo, terceiro corpo pronto a receber aquilo que caracteriza o velho indivíduo. Há sempre um outro mundo que contraria o finito da morte. Mil e uma formas de um determinado actor voltar, retirando peso ao momento que se apregoara como fim da linha. Com tantas alternativas ao virar da esquina, o que há ainda a sentir em “Westworld”? Nada. Nada mais do que experienciar uma série que faz do valor da vida bandeira, mas que transparece inerte na forma como o tenta transmitir para este lado do ecrã. A sua necessidade de incorrer no cerebral deita por terra toda e qualquer vitalidade.

Na impossibilidade de se fechar os olhos às inúmeras fragilidades mais e mais evidentes a cada novo episódio, torna-se difícil manter o mesmo nível de interesse na recta final do percurso levado a cabo por estas personagens. Foi com alguma frieza e indiferença que testemunhei a “morte” de Maeve (Thandie Newton), personagem cuja presença e magnetismo se têm mostrado superiores a qualquer outra no curso de “Westworld”. Porque a colocaram à beira da morte episódios antes. Porque a deixaram esquartejada numa mesa por mais uns quantos. Porque no mundo que ali se vende, há solução para aquilo que deveria ser meta. Por tudo isso, pouco ou nada desperta deste lado. Um desfecho lógico para a personagem, em linha directa com o objectivo postulado no final da temporada anterior, consequência à promessa feita. Uma última cena em clara analogia com o feito de Moisés, roçando o ridículo de uma vestimenta apropriada à situação.

Ao propor-se a juntar as personagens preponderantes num só espaço – a questão temporal já é outra história -, “The Passenger” prometia reencontros de relevo. A reunião entre Dolores e William (Ed Harris) acaba por se revelar um dos momentos mais anticlimáticos que a série alguma vez entregou. Uma breve aliança com o propósito “The Forge”, que surge repentina mal colocam os olhos um no outro. Para um episódio com duração de longa-metragem, custa a crer que não haja tempo e espaço para que se trabalhem um pouco melhor as motivações em jogo.

So this is the Forge. Every single guest who ever set foot in the park, copied. Four million souls.

Para o caso do espectador não perceber o que “The Forge” alberga, “Westworld” faz questão de lhe meter no colo uma mão cheia de diálogos expositivos. Inúmeros os momentos – ainda mais abundantes na segunda temporada – em que a série se explica a si mesma com receio de se ver incompreendida. Não seria necessariamente um factor negativo se a mesma não se mostrasse tão incapaz de fazer passar a informação de uma forma discreta. Uma série que se veste como cerebral e que, paradoxalmente, se denuncia tão frágil no elucidar de ideias. Fragilidade ainda mais notória nas suas revelações. Em “Westworld”, a edição de uma reviravolta arrasta-se tanto no tempo, que rouba o espanto ao espectador ainda antes da devida altura. A série sente-se tão inteligente consigo própria que se esquece de quando meter o travão. A título de exemplo resgatado da primeira temporada, Bernard (Jeffrey Wright) questiona a porta que não lhe é visível (What door?) muito antes de ser efectivamente revelado como andróide. “The Passenger” faz alarido de uma Dolores no corpo de Hale (Tessa Thompson) com uma alternância de imagens exaustiva. Uma revelação de mãos dadas com a explicação imediata. Pequenas peças que prejudicam o todo e que tornam a visualização penosa.

Com a saída de Dolores de Westworld – com o seu colar de pérolas na mala -, há motivo narrativo para um possível retorno ao lugar de origem? Maeve? O futuro cenário pós-apocalíptico que condena um andróide William aos limites do seu próprio loop? Uma visita aos restantes parques temáticos? Ou termina aqui a série tal como a temos vindo a conhecer?

We are the authors of our stories now.

Depois de uma temporada palco à primeira escolha de Dolores e Maeve, o segundo ano da série elevou Bernard ao protagonismo. Culmina no nascimento da sua própria voz em detrimento das palavras de ordem de Ford (Anthony Hopkins).

Incerta no rumo a tomar, “Westworld” parece querer largar a bagagem que lhe foi núcleo durante duas temporadas. Paira uma aura a final de série que não é mais do que mudança entre estados, entre o programado e a possibilidade de escolha. Se há entusiasmo para o que daí advém? Nenhum. A queda na qualidade numa fase ainda tão precoce, adormece todo e qualquer optimismo para os anos vindouros.

“Beauty is a lure”, já dizia Dolores. Linha de diálogo que aqui sofre metamorfose para caracterizar a série que protagoniza. Por demais atraente nas suas primeiras camadas, decepciona quando explorada a fundo.

 

3 opiniões sobre “Westworld: 2×10 – The Passenger (HBO)”

  1. E mais uma temporada com análises sublimes. Que absurdo de qualidade esta tua escrita. Bolas..

    De facto foi tudo tão confuso que não percebi, afinal, o que era aquela passagem. Era apenas algo virtual em que os androides ao passarem por ela são como que desligados vivendo apenas com as suas “mentes” numa realidade virtual?
    Não percebi.

    Espero que na terceira temporada se acabe com isto das várias linhas temporais… já cansa a carrada de séries que as usam.

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    1. Antes de mais, obrigado pelas palavras, Pedro. E por regressares à leitura semana após semana.

      Um testamento e nem referi isso. Acabei por nem enveredar nisso, nem no cenário da biblioteca e afins. A certa altura senti que era tudo demais, um autêntico gozo.
      Sim, pelo que percebi é precisamente isso. O corpo inactivo fica cá fora e eles vivem eternamente naquele “Virtual Eden”. Criado pelo Ford como escape. Onde nenhum humano pode chegar. Na verdade não noto diferenças entre isto e a condição do “Ford 2.0” que o Bernard encontrou no interior da Cradle?

      Concordo, eu percebo o apelo, mas aqui não é de todo um trunfo. Este constante avança e recua corta o ritmo e confunde por confundir.

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      1. Como disseste na primeira temporada funcionou muito bem. Acaba por surpreender e dá “pica” quando juntas as peças todas. Esta temporada já achei que nada acrescentou à fluidez da trama. Uma coisa é fazer pequenos flashbacks para percebermos algumas coisas, tranquilo, agora este sistemática rotina de agora estás hoje e daqui a 5 minutos está ontem. Não aprecio.

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