The Handmaid’s Tale: 2×13 – The Word (Hulu)

O texto que se segue CONTÉM SPOILERS

“The Handmaid’s Tale” despede-se de 2018 com uma escolha duvidosa. Até quando pode a série continuar a manipular o espectador desta forma?

June (Elisabeth Moss) toma uma decisão compreensível quando observada pela lente de mãe. Nem por um momento condenável face ao que deixaria para trás. A frustração para o espectador reside nas falsas esperanças que já vêm de trás, num reutilizar de promessas nunca levadas a cabo. No curso de uma só temporada já se haviam pintado dois cenários de fuga, um que se veria interrompido por forças alheias à protagonista, e um outro no qual a escolha da própria personagem a encaminharia de novo para a prisão Waterford. Face a todo este engodo, uma escolha por si só compreensível vê-se manchada como um retrocesso no percurso da personagem. Perde-se aqui o momento ideal para se avançar, desbravar novo terreno.

Talvez “The Handmaid’s Tale” venha a cambalear um pouco na qualidade quando finalmente se der a saída de June de Gilead. Afinal de contas, é na casa protagonista que se desenrola a maior fatia de interesse da série, onde se descamam as mais complexas interacções entre personagens. Talvez não haja ainda o à-vontade para um afastamento desse porto seguro. Se realmente não é opção criativa a tomar tão cedo, então há que saber quando parar de vender o “quase”. Por cada novo engano, é apenas mais uma camada de significado que se retira à fuga efectiva ainda por vir.

“The Handmaid’s Tale” ocasionalmente desleixa-se a si mesma como forma de fazer avançar a sua história. Desde o episódio-piloto que é bem ciente a constante de vigilância no dia-a-dia das personagens no fundo da cadeia alimentar, seja no interior de casa, seja numa mera ida ao mercado. É algo assente desde o início, essa incapacidade de se movimentarem e comunicarem com a liberdade de outrora. Por entre sussurros foram-se criando amizades e alianças que viriam a crescer, multiplicar. No decorrer deste segundo ano, notou-se um certo desleixo nas leis, nos alicerces da própria série. June fala com as amigas na rua de forma despreocupada. Recebe visitas de Nick (Max Minghella) no seu quarto, com um à-vontade que deixa de contemplar os restantes habitantes de peso da casa. June chega mesmo a ir com Nick de mãos dadas ver a filha que têm em comum. “The Handmaid’s Tale” molda as suas próprias amarras com uma certa conveniência para as personagens em jogo.

All we leave behind is the uniform. Wife. Handmaid. Martha. Mother. Daughter. Girlfriend. Queen. Bitch. Criminal. Sinner. Heretic. Prisoner.

À semelhança do último episódio da primeira temporada, a série volta a despedir-se com afrontas ao regime. No foro privado, June esbofeteia Fred (Joseph Fiennes), num momento tão satisfatório quanto aterrador para a protagonista. Há uma tensão constante e quase palpável entre ambas as personagens. Na verdade, uma tensão que se estende a cada cena deste “The Word”. Num momento por demais imprevisível, Emily esfaqueia Aunt Lydia (Ann Dowd). Aquilo que se lhe segue é mais um lembrete daquilo que Alexis Bledel consegue transmitir em total silêncio. Fechada no seu quarto, Emily vai gradualmente da euforia ao desespero.

A morte de Eden (Sydney Sweeney) move todas as peças em redor. Rita (Amanda Brugel) – uma personagem com potencial ainda por explorar – desencadeia uma sucessão de acontecimentos que trazem à luz uma aliança entre Marthas. Remetidas à sombra, reduzidas na importância, e no entanto capazes de ludibriar o sistema. Serena (Yvonne Strahovski) dá aso à sua própria revolução, ainda que curta e sem provocar a diferença a longo prazo. Magnífica a forma como a sua amputação é contada ao espectador antes de ser efectivamente mostrada. Fred pousa o anel da mulher em cima da mesa de cabeceira, gesto que resume um antes e depois.

“The Word” trabalha a redenção de Serena como personagem a transitar de frente de guerra. Capaz de entregar a filha nos braços de June, ciente de um outro futuro exterior aos limites de Gilead. Uma vilã que sempre colocou o desejo de ser mãe acima de qualquer outra coisa. Aqui abdica do tão almejado papel em prol do bem-estar da filha. Uma temporada fascinante na forma como fez crescer a personagem. Uma fluidez de motivos que nunca se viram reduzidos à superficialidade do certo e errado.

Não obstante a questionável opção criativa que encerra o episódio, “The Word” não chega a deturpar a elevadíssima qualidade demonstrada no decorrer da temporada. A voz de “The Handmaid’s Tale” é ainda bem audível.

 

3 opiniões sobre “The Handmaid’s Tale: 2×13 – The Word (Hulu)”

  1. Também fiquei algo frustado com este último episódio, sobretudo por criar novamente a ideia de fuga. Espero que da próxima vez consiga mesmo concretizar a fuga, de preferência com a filha mais velha 😀
    No geral foi uma temporada muito boa, com uma fotografia cada vez mais impressionante, com cenas e interpretações memoráveis (à cabeça June e Serena), mas que podia melhorar em alguns aspetos (os tais facilitismos que foste referindo e por vezes a banda sonora).
    Obrigado pelas excelentes críticas, agora é hora de voltar a The Westworld 😀

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    1. Pois é realmente frustrante face às tentativas tidas anteriormente. Fosse esta uma estreia nesse aspecto e talvez se engolisse tudo melhor. Assim parece manipulação directa do espectador. Fora isso, também gostei muito da temporada. Mas acho que vai precisar de uma mudança significativa na próxima, não podemos andar para sempre neste “torture porn”.

      Obrigado rmso, pela leitura e os teus comentários assíduos 🙂

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  2. E aqui cheguei. Maratona de The Handmaid’s Tale nas férias. Grande série mas não chega a entrar no circulo das minhas grandes séries.
    Ao longo da série sempre me fez confusão a “liberdade” entre June e Nick, um abuso para o contexto da própria série. A facilidade com que cortaram o braço ao outro por andar enrolado com a Janine e depois outros escapam de diabruras iguais ou piores. Pormenores, apenas isso, mas que acabam por impedir a série de dar o salto qualitativo que merecia.
    Esta não fuga de June só pode querer significar que vai atrás da filha ou vingar-se. Se regressar a casa será uma desilusão brutal, será mais do mesmo, e um possível sinal de falta de ideias. Mas aguardemos. Não fiquei desiludido por ela não ir com Emily, ficarei desiludido sim se tudo se repetir na terceira temporada.
    A minha grande desilusão nesta segunda temporada foi com a chegada do novo comandante de Emily e a relação entre eles. Pensei que seria muito mais explorada, com o gajo a explicar muito do que é Gilead e como se tornou no que conhecemos dado nos ter sido informado que era alguem importante, inteligente e responsável por muito do que aconteceu. Nada nos foi revelado. 😦

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