Legion (T2): Uma espécie de trip lynchiana, mas sem gajos a varrer o chão durante cinco minutos

O texto que se segue NÃO CONTÉM SPOILERS

Mindfuck, mind-orgy, mind-blowing, mind-bending… “Legion”, a série do FX baseada em super-heróis da Marvel, retirados do universo X-Men, ocupa um lugar na ficção televisiva actual quase ímpar, onde, juntamente com “Twin Peaks” – porventura uma das suas maiores inspirações -, nos oferece uma viagem em forma de delírio criativo pautado pelo meticuloso uso da imagem como forma narrativa.

Escrever sobre a série, e em concreto sobre a sua segunda temporada, não é fácil. Não porque não se saiba o que escrever, mas simplesmente porque não é fácil exprimir todos os sentimentos que a mesma suscita.

Pegando num personagem onde a psique é determinante para a sua construção, onde as múltiplas personalidades que manifesta controlam diferentes poderes, tornando-o um dos mutantes mais poderosos, e perigosos, do universo X- Men, “Legion”, a série, estruturou-se deliberadamente como uma percepção subliminar, onde o psicadelismo impera e a razão assume diferentes significados.

Astutos na apresentação, seja através da singularidade das introduções aos episódios narradas por Jon Hamm ou na construção de espaços visualmente ricos que servem de cenário a personagens que rapidamente se tornam icónicas (ex: gajas de bigode!) e representativas da força criativa por detrás da série, a equipa liderada por Noah Hawley joga cartada atrás de cartada sem medo de vacilar.

Não é fácil convencer executivos a apostarem neste tipo de conteúdos que, apesar de desafiarem as audiências, raramente se conseguem destacar. Lynch é Lynch e só por o ser consegue encontrar com maior facilidade quem dê asas (financie) à sua imaginação. Hawley não tem, e dificilmente alguma vez terá, o peso de Lynch, mas encontrou no FX um parceiro fiel após a bem-sucedida temporada de “Fargo”.

A narrativa, é certo, é parca em adrenalina. Mas não precisa de sucumbir ao estereótipo Marvel para vingar. Reforça-se em substância permitindo aos detalhes pulular através da contemplação. Por outro lado, isso impõe-lhe uma natureza por vezes caótica, tornando a subtileza numa barreira que nem sempre é fácil de transpor, especialmente se não houver uma enorme vontade do recipiente (espectador) em assumir essa missão. Talvez por, por vezes, a sua visualização se sentir como uma tarefa (para perceber verdadeiramente a mensagem pode ser preciso rever várias vezes ou procurar opiniões terceiras que nem sempre serão consensuais), “Legion” tem sentido algumas dificuldades em manter, passo a redundância, uma legião de seguidores.

É pena, pois numa série onde parecer haver de tudo para todos os gostos, na realidade hoje em dia apenas se mantém requintada para um nicho, segmento esse aparentemente cada vez mais restrito. As audiências nos EUA foram abismais e em Portugal foi desprezada pela FOX Portugal (canais que têm vindo a perder identidade, sucumbindo ao populismo), não só tendo sido emitida com vários dias de intervalo para a exibição nos EUA como quase que pareceu “jogada fora” ao ser recambiada para as madrugadas de um qualquer dia da semana. E esta tendência parece inultrapassável. Felizmente, a série foi renovada para uma terceira temporada e, apesar de nada ter sido dito sobre se seria a última, o mais provável é que seja. Por isso, há que aproveitar o desvario psicadélico que Noah Hawley e a sua equipa nos têm oferecido enquanto este ainda dura. Por aqui, aguarda-se com expectativa.

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