BoJack Horseman fora do seu elemento

O texto que se segue foi originalmente publicado em Julho de 2016

No dia em que “BoJack Horseman” regressa ao Netflix, recordamos, sem spoilers, aquele que foi, provavelmente, o melhor episódio da série.

Fez-se (literalmente) silêncio para um dos melhores episódios do ano televisivo.

Assim que os créditos finais cobriram “Fish Out of Water”, quarto episódio da mais recente temporada de “BoJack Horseman”, soube de imediato estar diante de algo verdadeiramente especial. Meros segundos de pesquisa levaram-me a concluir não estar sozinho perante tamanha sensação. Os críticos andam apaixonados por esta meia-hora, sendo que muitos deles o clamam como o melhor episódio a povoar a televisão este ano. Qualidades que o justifiquem não faltam. Ode ao cinema mudo.

A série sai literalmente do seu elemento para nos entregar um mundo subaquático até então oculto. Mergulhamos num ambiente concebido de forma exímia e com a mais ínfima atenção aos pormenores. O design das criaturas marinhas é soberbo, utilizando-se os traços característicos mais óbvios de cada animal sem resvalar para o ridículo. As cores vibrantes poderiam muito bem ser fruto de uma qualquer viagem de LSD levada a cabo pelo protagonista, não estivesse este desprovido de quaisquer substâncias no decorrer deste episódio. Resultam num ambiente psicadélico e absolutamente estonteante. Contrastam com o negro pessimismo da personagem.

A imagem que se segue é mero exemplo do brilhante design de produção de Lisa Hanawalt. Um cardume cuidadosamente alinhado num transporte público cujos suportes para as mãos são anzóis. Criatividade ao mais alto expoente.

E qual o factor que distingue ainda mais este episódio dos restantes? A resposta requer silêncio.

O episódio desenrola-se ausente de diálogos quase na totalidade, sendo excepção os meros minutos iniciais. BoJack encontra-se fora do seu elemento não só por se encontrar longe do que lhe é reconhecível mas também por não conseguir comunicar com os demais.Essa barreira na linguagem intensifica o sufoco sentido pela personagem. O oceano é vasto e no entanto tão certeiro na sua clausura.

E assim se constrói um episódio que comunica visualmente, numa espécie de “sinfonia da cidade” transposta para o pequeno ecrã. Faz-se de situações em catadupa, homenageando a narrativa de peripécias dos Looney Tunes. Há ainda um pouco da confusão da modernidade eternizada no “Modern Times” do Chaplin. Enquadra-se comédia mas também drama existencialista tão enraizado na existência de BoJack. Sai do episódio com um vazio ainda maior por preencher.

A música de Jesse Novak entra por novos mundos desconhecidos para a série. O instrumental encontra-se em perfeito coro com a imagem experimental. “Fish Out of Water” é inovador e aprofunda o cerne de BoJack sem o auxílio de diálogos. Conseguiram criar um mundo subaquático harmonioso que é colírio para os olhos. Um dos episódios do ano.

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