Daredevil (T3): Um homem sem medo

O texto que se segue CONTÉM SPOILERS

“I’m Daredevil. Not even God can stop that now.”


O Daredevil não é só uma das melhores personagens da Marvel, é também uma das personagens com histórias mais complexas e cativantes. E entre todas estas histórias, aquela que podemos apontar como sendo a que mais marcou a personagem, é o arco “Born Again”, escrito por Frank Miller e David Mazzuchelli. Esta dupla, que para muitos redefiniu o Daredevil, pegou numa personagem que já tinha sofrido muito ao longo dos anos, e levou-a ao limite, mergulhando-a na maior escuridão. Uma escuridão que, no entanto, obrigou-a a mostrar aquilo que valia, e a provar que um homem sem esperança é, também, um homem disposto a tudo — um homem sem medo.

Sabendo de antemão que esta era a história mais marcante da personagem, a expectativa para ver como a série de televisão a ia abordar era muita. No entanto, depois de uma estreia fulgurante e de duas sequências desapontantes, a expectativa dava também lugar ao receio. Mas, no final, apenas no resta dizer: raios, que esta temporada foi brutal.

Começamos a temporada onde fechámos em “Defenders”, com Daredevil a sacrificar-se para salvar os restantes colegas e a cidade. Um sacrifício que, sabíamos nós, não iria custar-lhe a vida. Pelo menos, não fisicamente. Daredevil sobrevive, mas a custo de Matt Murdock, que se encontra num ponto de viragem físico, emocional e espiritual. (“I’d rather die as the devil, than live as Matt Murdock”). Matt aceita a vida, mas recusa-se a viver, preferindo manter-se nas sombras, nas catacumbas do orfanato onde cresceu. Nem as preces do padre Lantom, nem o incentivo da recém-chegada irmã Maggie, conseguem convencer Matt a regressar à vida. Nem os amigos Karen e Foggie, que continuam sem saber que Matt está vivo. Apenas um homem o consegue retirar do abismo em que se encontra — Wilson Fisk.

É a raiva, o sentimento que o vilão está a conseguir safar-se, que faz Matt mexer-se, regressar à luz do dia e à sua verdadeira identidade, para tentar travar o plano maquiavélico de Fisk. E assim o é durante toda a temporada. Matt acredita que existe um plano maquiavélico, que Fisk está sempre um passo à frente dos outros e que tudo aquilo que faz tem um propósito escondido. Os outros, no entanto, não o percebem a tempo, dando oportunidade ao vilão de se reposicionar e de mostrar toda a sua força. Uma força contra a qual o Daredevil vai lutar, ao mesmo tempo que Matt Murdock vai sendo destruído.

Que Wilson Fisk era genial, já nós sabíamos. Mas constatar a forma como o Kingpin se revela em todo o seu esplendor, conseguindo que o tirem da prisão, fingindo ser aliado da polícia, para logo depois a controlar, é absolutamente impressionante. Fisk tinha um plano. Fisk tem sempre um plano. E isso é o que faz do Kingpin um dos melhores (se não mesmo o melhor) vilão de todo o MCU. Fisk consegue pôr todos a comer na palma da sua mão — FBI incluído —, ao mesmo tempo que vai derrotando a concorrência e que vai destruindo a vida de Matt Murdock. Episódio atrás de episódio, cena após cena, vemos o chão a ser retirado debaixo dos pés de Matt Murdock. Vemos Murdock a ser publicamente humilhado e perseguido. Vemos os aliados de Murdock transformados em alvos a abater e a sofrerem as consequências. Vemos Murdock cercado por todos os lados. Vemos Murdock a bater no fundo… e a lutar com todas as suas forças para voltar. Vemos um homem que perdeu tudo aquilo que sempre o guiou e que lhe dava alento, mas que decide, ainda assim, lutar para salvar os que lhe são próximos. Vemos toda a força, toda a garra de Matt nesta temporada. E vemos, por isso, o Daredevil a sair vitorioso.

O caminho percorrido pelo Daredevil nesta temporada foi o oposto ao do seu maior inimigo, Wilson Fisk. Já se pedia um regresso em grande desta personagem, e a verdade é que não desapontou. Vincent D’Onofrio volta a dar cartas, conseguindo imprimir a este monstro uma sensibilidade, uma delicadeza, que parecem quase inacreditáveis. O Kingpin é cativante – não só para as restantes personagens, que caem na sua conversa, mas também para nós, espectadores, que não conseguem deixar de sentir fascínio pela forma como este homem consegue dominar por trás e por frente das câmaras. É impossível tirar os olhos de Fisk, seja enquanto cozinha a omelete que o lembra da sua amada, seja enquanto esmaga a coluna a um aliado com as suas próprias mãos. A ascensão e a queda do Kingpin esteve em direto contraponto com a queda e a ascensão do Daredevil, provando mais uma vez que os dois são lados da mesma moeda.

Se a temporada foi do Daredevil e do Kingpin, não podemos esquecer de mencionar as restantes personagens que, de forma muito distinta, levaram Matt a “renascer”. Começando pelos estreantes: irmã Maggie, a freira que tentou ajudar a salvar a alma de Matt como forma de retribuição pelos seus erros do passado; Ray Nadeem, o agente do FBI que é engolido pela luta entre Daredevil e Wilson Fisk e acaba por sofrer as consequências; E Ben “Dex” Pointdexter, o agente do FBI com um passado escuro que se transforma num dos maiores inimigos de Daredevil, Bullseye. Ultrapassado o choque da revelação do passado da irmã Maggie, vemos na personagem o próximo apoio espiritual de Matt Murdock, substituindo-se ao pobre padre Lanton. Nadeem não irá regressar, mas o seu sacrifício possibilitou a Daredevil recapturar Fisk e acabar com a sua teia de influências, permitindo a Matt um regresso à vida normal. E quanto a Dex, o futuro Bullseye? Deste implacável vilão, que tão impressionante estreia teve, espera-se apenas que venha a regressar e que traga consigo a segunda melhor história do Daredevil: “Roulette”. E quanto aos antigos amigos, Foggie e Karen? A história da segunda ao longo da temporada foi certamente mais interessante do que a do primeiro, mesmo não tendo seguido a história original em que a temporada se baseou. Mais do que servir como os agentes para a ressurreição de Matt, Karen e Foggie estão aqui para fazê-lo perceber que os amigos estarão sempre do seu lado, para o bem e para o mal, permitindo terminar a temporada de forma positiva. Nelson, Mudock & Page esperam por novas aventuras.

A terminar, salientam-se ainda dois aspectos que fizeram desta a melhor temporada de “Daredevil”. O primeiro é repetente: as cenas de luta que, mais uma vez, nos mantêm presos ao ecrã. Da luta a três do Daredevil, de Dex e de Fisk, ao ataque ao transporte de prisioneiros de Fisk, à impressionante cena na prisão em “Blindsided”, “Daredevil” elevou a luta nos corredores a todo um outro patamar que será difícil de alcançar por qualquer outra séries da Netflix – seja da Marvel ou não. São dez minutos de puro deleite visual, para ver e rever. O segundo aspeto é o visual. Numa série que sempre marcou pela estética irrepreensível e que conseguiu mais uma vez apresentar formas interessantes de contar uma história (como a cena em que Fisk “revê” o passado de Dex”), são as homenagens aos painéis retirados da banda desenhada que mais nos marcam.

Uma temporada brilhante para uma série excelente que esperemos que possa regressar. Que os deuses da Marvel protejam “Daredevil” dos cancelamentos na Netflix.

 

2 opiniões sobre “Daredevil (T3): Um homem sem medo”

  1. Ainda só vi o primeiro episódio da terceira temporada, mas a qualidade para continuar lá 😀 Não li a tua crítica, mas quando terminar vou fazê-lo e deixo a minha opinião. Adorei as duas anteriores temporadas de Daredevil, por isso as expetativas são elevadas 😀

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  2. Estou de pé a aplaudir esta excelente análise. Parabéns Syrin.

    É tudo isto. Adorei esta temporada e concordo com practicamente tudo o que disseste.
    Gostei muito de Karen nesta temporada.
    Fisk enche o ecrãn. Que brutalidade de personagem e interpretação.
    E finalmente o regresso das boas lutas. Na segunda temporada e em IF a qualidade quebrou muito, mas nesta 3ª de DD voltaram a ser top.

    O único senão é a quantidade de porrada que ele leva e para quem não tem poderes especiais de recuperação a coisa fica assim exagerada.

    Não pode ser cancelada. Não pode.

    PS. A referência final a JJ. Tão bom.

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